Antonio Marcos Gonçalves Pimentel – O Monge, A Irmã E O Orto Do Esposo

Em O Monge, A Irmã E O Orto Do Esposo, a formalidade acadêmica entra em harmonia com a desconcentração de uma leitura leve e cativante.

Antonio Marcos Gonçalves Pimentel – O Monge, A Irmã E O Orto Do Esposo

Por volta de 1385, nos frios scriptoria do mosteiro português de Alcobaça, um monge cisterciense, cujo nome ficou para sempre obscuro, começou a, penosamente, como era toda a atividade literária da época, redigir um grande tratado sobre as coisas do mundo e como, através delas, poderia um cristão entender os desígnios de Deus para a humanidade através da figura de Jesus.

Em outras palavras: por Cristo, teria acesso o homem medieval comum à salvação eterna se soubesse a maneira prática de como fazê-lo.

Esse grande compêndio das coisas mundanas, tão ligadas em significado ao evento da encarnação, paixão, morte e ressurreição de Jesus, não economizou páginas para descrever fatos históricos, hagiografias, propriedades dos animais, características das plantas e das pedras e do que mais dessem conta a natureza e o universo.

Tudo o que os homens conheciam, fosse nos campos filosófico, natural, teológico ou mundanal, quis o autor anônimo dessa miscelânea comparar às Sagradas Escrituras, articulando uma chave de leitura para Cristo, isto é, dando forma teológico-literário-cristã a uma mentalidade alegórica muito antiga, e que tomou forma cristã a partir do século I da nossa era, principalmente com as cartas de São Paulo (a partir do ano 50) e com as primeiras (e originais) versões dos livros do Novo Testamento.

Assim, na Idade Média, como, ao ler o mundo natural, poderiam os homens, através de Cristo reinterpretado nessa mesma natureza, chegar a Deus, também esses homens poderiam fazê-lo lendo as Sagradas Escrituras e nelas reinterpretando Jesus.

Em outras palavras: a leitura do mundo natural, histórico e textual é a base para uma interpretação em que se experimenta e se compreende um mundo espiritual, que é, ao fim e ao cabo, Cristo e a salvação3 eterna das almas.

O Orto Do Esposo, como batizou o seu autor esse compêndio, é um grande manual de leitura do Livro do Mundo e também da Bíblia, e, ao mesmo tempo, uma imensa coletânea do conhecimento humano até aquela data.

Não fosse a sua hermenêutica tão profunda e direcionada, diríamos que o Orto Do Esposo assemelha-se às primeiras enciclopédias e compêndios pós-renascentistas e iluministas, estes, tão distantes de Deus e tão mais próximos da ciência, dois elementos a priori imiscíveis entre si, mas que, nas páginas do Orto, já estavam intrinsecamente ligados em prol de uma significação maior: Jesus Cristo.

Vê-se que um dos aspectos da produção do Orto Do Esposo é conseqüência direta de um tempo com características muito precisas de medievalidade; ao mesmo tempo que no século XIV já vinham se consolidando as novas mentalidades humanistas e renascentistas, com o surgimento, desde o século XIII, das universidades e da nova formatação social das cidades – o estilo de vida urbano –, surgiam também os movimentos monásticos de resistência a favor do ascetismo e da preservação do saber ante o temor de seu deterioramento ex scriptoris.

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Em O Monge, A Irmã E O Orto Do Esposo, a formalidade acadêmica entra em harmonia com a desconcentração de uma leitura leve e cativante.

Antonio Marcos Gonçalves Pimentel - O Monge, A Irmã E O Orto Do Esposo

Por volta de 1385, nos frios scriptoria do mosteiro português de Alcobaça, um monge cisterciense, cujo nome ficou para sempre obscuro, começou a, penosamente, como era toda a atividade literária da época, redigir um grande tratado sobre as coisas do mundo e como, através delas, poderia um cristão entender os desígnios de Deus para a humanidade através da figura de Jesus.

Em outras palavras: por Cristo, teria acesso o homem medieval comum à salvação eterna se soubesse a maneira prática de como fazê-lo.

Esse grande compêndio das coisas mundanas, tão ligadas em significado ao evento da encarnação, paixão, morte e ressurreição de Jesus, não economizou páginas para descrever fatos históricos, hagiografias, propriedades dos animais, características das plantas e das pedras e do que mais dessem conta a natureza e o universo.

Tudo o que os homens conheciam, fosse nos campos filosófico, natural, teológico ou mundanal, quis o autor anônimo dessa miscelânea comparar às Sagradas Escrituras, articulando uma chave de leitura para Cristo, isto é, dando forma teológico-literário-cristã a uma mentalidade alegórica muito antiga, e que tomou forma cristã a partir do século I da nossa era, principalmente com as cartas de São Paulo (a partir do ano 50) e com as primeiras (e originais) versões dos livros do Novo Testamento.

Assim, na Idade Média, como, ao ler o mundo natural, poderiam os homens, através de Cristo reinterpretado nessa mesma natureza, chegar a Deus, também esses homens poderiam fazê-lo lendo as Sagradas Escrituras e nelas reinterpretando Jesus.

Em outras palavras: a leitura do mundo natural, histórico e textual é a base para uma interpretação em que se experimenta e se compreende um mundo espiritual, que é, ao fim e ao cabo, Cristo e a salvação3 eterna das almas.

O Orto Do Esposo, como batizou o seu autor esse compêndio, é um grande manual de leitura do Livro do Mundo e também da Bíblia, e, ao mesmo tempo, uma imensa coletânea do conhecimento humano até aquela data.

Não fosse a sua hermenêutica tão profunda e direcionada, diríamos que o Orto Do Esposo assemelha-se às primeiras enciclopédias e compêndios pós-renascentistas e iluministas, estes, tão distantes de Deus e tão mais próximos da ciência, dois elementos a priori imiscíveis entre si, mas que, nas páginas do Orto, já estavam intrinsecamente ligados em prol de uma significação maior: Jesus Cristo.

Vê-se que um dos aspectos da produção do Orto Do Esposo é conseqüência direta de um tempo com características muito precisas de medievalidade; ao mesmo tempo que no século XIV já vinham se consolidando as novas mentalidades humanistas e renascentistas, com o surgimento, desde o século XIII, das universidades e da nova formatação social das cidades – o estilo de vida urbano –, surgiam também os movimentos monásticos de resistência a favor do ascetismo e da preservação do saber ante o temor de seu deterioramento ex scriptoris.

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