
Em 1989 Nise da Silveira passa a escrever cartas que conferem o caráter ambivalente de externalizar a interioridade, de tornar público o privado, de materializar sentimentos e pensamentos. Essas cartas, em número de sete, são, sem dúvida, dirigidas a quem se encontra distante, não somente no espaço, mas também no tempo.
No período em que Nise da Silveira escrevia essas cartas, contava com a colaboração de Élvia Bezerra datilografando os textos, fazendo sugestões quando solicitada, cotejando edições inglesas com francesas da obra de Jung e de outros autores, ou seja, Élvia trabalhava diretamente com os textos elaborados pela médica alagoana.
Esses textos, que deram origem ao livro Cartas A Spinoza, foram escritos sem que a colaboradora, de início, pudesse vê-los, pois Nise da Silveira “protegia-os com o braço enquanto redigia”.
Aos poucos, as páginas eram viradas, de maneira intencional, deixando à mostra o texto que se iniciava com a saudação: “Meu caro Spinoza”.
Depois que as sete cartas já estavam prontas, Nise da Silveira mostrou-as a Élvia Bezerra. A colaboradora ficou impressionada com os textos, principalmente por se tratar de cartas escritas por quem já lhe havia dito que não sentia “nenhuma necessidade de fazer confissões!”.
As cartas traziam diversos dados de sua intimidade, relatando lembranças e apresentando o pensamento do filósofo holandês pelo viés do sentimento.
Spinoza entrou na vida de Nise da Silveira após a saída dela da prisão durante o governo Vargas, quando, inicialmente, foi para o interior da Bahia e, posteriormente, para Maceió, sua cidade natal.
Durante esse atribulado período de sua vida, Nise da Silveira adquiriu a Ética de Spinoza e, logo no início da leitura, as inúmeras inquietações que afligiam a médica praticamente desapareceram.Não que os sofrimentos tenham se dissipado por completo, mas perderam muito em importância.
Ocorrera uma transformação, pois Nise da Silveira ainda sofria, mas de maneira diferente, além de adquirir novos valores para a vida. A adepta das concepções marxistas foi atingida pela ideia da totalidade, denominada por Spinoza como Deus.
Logo na primeira carta ao filósofo, Nise da Silveira relata esse acontecimento e acrescenta: “Desde então, desejo intensamente aproximar-me de você, como discípula e amiga. Este é o motivo por que lhe escrevo essas cartas”.
