Carlos Drummond De Andrade – Amar Se Aprende Amando
No último volume de poemas que publicou em vida, Carlos Drummond de Andrade une o lado sublime do sentimento amoroso às dimensões prática e política da vida cotidiana.
Amar Se Aprende Amando permite como nenhum outro livro de Drummond um percurso pelas diferentes formas que o sentimento amoroso assume em sua poética.
Do amor sublime àquele que se atinge pelo convívio ideal, da fusão dos amantes em unidade perfeita à celebração da amizade, o que encontramos nos 68 poemas que compõem este volume é o fruto do esforço do poeta em conciliar sentimento e experiência.
Se o amor pode ser aprendido pela prática, como afirma o título do livro, a concretude do cotidiano permeia o sentimento romântico, dando a conhecer a dimensão política deste.
Ao anseio do amor ideal somam-se as referências do contexto histórico do país, que vivia sob um regime militar, como deixa claro o poeta nos versos “O feijão é de todos, em princípio,/ tal como a liberdade, o amor, o ar./ Mas há que conquistá-lo a teus irmãos.”
Amar Se Aprende Amando representa, no interior de sua vasta e complexa produção, um momento de síntese. Embora, juntamente com A falta que ama e O amor natural, seja um dos poucos livros que faça referência ao sentimento amoroso desde o título, a obra elege de modo muito particular e fulgurante um núcleo temático que, já presente em Alguma poesia, se adensaria nos poemas da maturidade e, no livro de 1985, encontraria uma expressão integradora.
Nos primeiros poemas amorosos de Drummond predominava a tentativa, invariavelmente fracassada, do sujeito lírico de harmonizar o sentimento sublime com a desordem do mundo, ora de modo mais sardônico, ora de forma mais pungente.
É assim que o célebre “Quadrilha” (“João amava Teresa que amava Raimundo/ que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili/ que não amava ninguém”) incorpora em sua própria estrutura a assimetria e a ilogicidade do sentimento amoroso, sob o registro perplexo e debochado do poeta gauche, disposto a zombar das convenções e do acaso, como o imprevisto casamento de Lili “com J. Pinto Fernandes/ que não tinha entrado na história”.

 

Camisa Drummond

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