Carlos Drummond De Andrade – Discurso De Primavera E Algumas Sombras

Posted on Posted in Poesia

O poeta já andava além do outono, aos 75 anos de idade, quando seu Discurso de primavera e algumas sombras saiu do prelo, em finais de 1977. A velhice da mão não lhe impedia a renovação da pena. E assim ele deixava passar uma oportunidade (que podia ser sua última) de se entregar ao clássico lugar-comum pelo qual o versejador idoso lamentava estar numa reta final, na estação em que a natureza recomeçaria mais um ciclo.
Aposentadoria? Vida contemplativa? Nada disso, pelo que informava a “orelha”: aquele não seria um “livro de individualismo poético, mais voltado para o eu do que para o mundo”. Ao contrário, o que se prometia ali era “antes a participação ativa do poeta, como artista e como consciência, no processo global em que estamos empenhados”.
Ficara para trás o Drummond outonal de Claro enigma (1951) e Fazendeiro do ar (1954), que parecia ter banido para sempre de sua obra a noção de uma escrita participante ou empenhada politicamente. E retornava, numa espécie de segunda maturidade, o anterior, que em livros como Sentimento do mundo (1940) e A rosa do povo (1945) conquistara uma reputação de “poeta público”.
Nesse passado distante, quando ainda estava inclinado ao comunismo, ele afirmava um “tempo de partido” e de “homens partidos”. Mas sua política na velhice passaria a reclamar uma totalidade em extinção: “eterno (e amoroso) é o homem/ ligado ao quadro natural”. A participação pública da poesia tardia de Drummond tinha trocado a antiga sensibilidade social por uma preocupação ecológica, à qual também se associava uma postura pacifista e eminentemente civil. E isto no contexto de um mundo armado até os dentes, conturbado pela Guerra Fria e, na ditadura do Brasil, pelo confronto entre generais à direita e guerrilheiros à esquerda.
Em meio a tanta polarização, Drummond assumira a posição da mais rigorosa equidistância. Desde o final da década de 1940 estava desiludido com a militância partidária e com as utopias planificadoras da vida. Mas o clima revolucionário dos anos 1970 trouxera novas bandeiras, às quais o poeta não se manteve insensível.
Um sentido de urgência afastava esse último Drummond das acomodações próprias da terceira idade. “Que alguém te cante e te descante/ ficou urgente, Primavera” — escreveu ele, como quem escreve num “papel aberto às gentes”. A expressão parece referir-se à própria poesia, pelo caráter de publicidade que ela tem, mas originalmente se liga de maneira mais direta ao jornal cotidiano, onde todas as emergências do tempo vão desembocar.

Deixe uma resposta