Franz Kafka – Sonhos

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Os ecos da ‘obra’ kafkiana são inúmeros neste volume – a figura obsessiva do pai, mulheres com corpos insinuantes, cartas, lutas, metamorfoses, porteiros gigantes, sereias, dentes, cenas asquerosas, máquinas que picam pessoas.
Todos estes temas caros aos seus romances, novelas e fragmentos surgem aqui a partir da tela de seus sonhos.
Os sonhos de Franz Kafka reforçam a tese de que a literatura começa muito antes da escrita, e mesmo antes de qualquer processo intelectual anterior (a leitura, os esboços, etc).
A literatura _ mostram _ começa antes ainda de estarmos acordados. Apesar da estrutura desordenada e do estilo apressado, os contos de Kafka antecipam seus relatos.
Lá estão os mesmos monstros, a mesma arquitetura escabrosa, os mesmos vícios, a mesma insanidade. Tudo _ ou quase tudo _ vem dali. Por isso se torna tão estimulante lê-los.
Entre tantos sonhos, um dos que mais me impressiona é o que Kafka teve com seu pai em 06 de maio de 1912.
Passeando por Berlim, e depois de saltar de um bonde, Kafka e seu pai esbarram com uma parede muito íngreme. Um obstáculo, como as folhas em branco. Os dois começam a escalá-la. “Meu pai foi escalando quase dançando”, descreve Kafka. Ele, ao contrário, logo fica para trás.
Escorrega várias vezes seguidas. Tem a sensação de que, quanto mais avança, mais íngreme a parede se torna. Cabe perguntar se essa não é a mesma sensação que Kafka tem ao escrever. Quanto mais escreve, mais difícil se torna escrever.

Franz Kafka nasceu em Praga, na Boêmia (hoje República Tcheca), em 1883. Fez seus estudos na cidade natal, formando-se em direito em 1906. Tuberculoso, alternou temporadas em sanatórios com o trabalho burocrático.
Jamais deixou de escrever, embora tenha publicado pouco e, já no fim da vida, pedido inutilmente ao amigo Max Brod que queimasse seus escritos. A maior parte de sua obra, toda escrita em alemão, foi publicada após sua morte.
Quase desconhecido em vida, é considerado hoje um dos maiores escritores deste século. Autor de grandes obras como A metamorfose (1915) e O processo (1925), Kafka publicou 29 livros, entre romances, novelas e diários. Morreu em 3 de junho de 1924, em Kierling, perto de Viena.

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