Chão de Minha Utopia, organizado por Paula Elise Ferreira e Wilkie Buzatti Antunes e publicado pela Universidade Federal de Minas Gerais, traz a palavra direta de Mané da Conceição e testemunhos sobre ele e sobre as lutas dos trabalhadores rurais do Maranhão. Relatos inestimáveis ­ pela trajetória de um homem construtor de utopias e por uma lição ministrada pela brutalidade crua das lutas que opõem posseiros a latifundiários ou grileiros: as utopias derivam de sonhos coletivos.
Chão De Minha Utopia traz fragmentos de milhares de pequenas guerras dispersas pela atormentada geografia do Brasil Profundo, em geral ignoradas pelo país metropolitano que se imagina contemporâneo do mundo. Passo a palavra ao Mané:
Foi uma verdadeira guerra, mas hoje 15 mil famílias são possuidoras de terras e, apesar do abandono da região pelo governo, estão produzindo e não estão passando fome. Nas terras ocupadas e desapropriadas não existem escola nem eletrificação, nem estrada, nem água tratada, nem assistência médica, nem apoio à produção, pois o governo dos latifundiários apostou no fracasso. Isso era importante para eles tanto do ponto de vista econômico como ideológico. Mas os trabalhadores estão mostrando o contrário. O projeto deles na região foi que fracassou. O nosso, mesmo sem nenhum apoio, matou a fome e até transformou a região.
Em dez anos, Buriticupu, que era um pequeno povoado abandonado, que só tinha uma casa comercial e um motor de pilar arroz, se tornou a sétima arrecadação do estado [do Maranhão]. Tem 18 mil residências, 24 usinas de arroz, 100 casas de farinha, 2 bancos, 3 postos de gasolina e mais 500 outros estabelecimentos de comércio, pequenas indústrias, restaurantes, bares, escolas, oficinas etc. Interessante é que quem fez isso não foi nenhum grande projeto capitalista, mas a reforma agrária sob controle dos trabalhadores. Foi a movimentação do dinheiro de pequenos produtores. Por isso é que hoje muitos pequenos empresários da região apoiam nossa luta.
É impossível tratar da trajetória de Manoel da Conceição sem mencionar esta frase: “Minha perna é minha classe”. De algum modo ela recortou seu perfil como figura pública. Como dirigente sindical dos trabalhadores rurais do Maranhão, mais tarde, no exílio, como militante político na Ação Popular e depois da anistia, em seu retorno, como membro da Direção Nacional do PT. O episódio se refere à perda da perna direita, amputada em consequência de ferimento à bala numa operação de repressão da Polícia Militar aos trabalhadores do Vale do Pindaré-Mirim e de ausência de tratamento, que resultou em gangrena.

Deixe uma resposta