Esta coletânea de contos e novelas inclui quatro obras de Fiódor Dostoiévski escritas ou publicadas entre 1848 e 1849. O Ladrão Honesto, publicado pela primeira vez na revista literária Otetchestvennie zapíski “Cadernos Nacionais” desdobrado em dois contos, foi modificado em 1860 para um só conto em que Dostoiévski introduz a figura do narrador, tão típica em muitas das suas obras ulteriores e servindo-lhe para “objetivar” ao máximo a história e para se introduzir a si mesmo dentro dela. Neste conto, porém, o narrador é ainda um participante ativo da história, com características minuciosamente definidas. Já no conto Árvore de Natal…, o narrador se aproxima do repórter ou cronista de Os Irmãos Karamázov ou Os Demónios: personagem criado para narrar ou registrar os acontecimentos em vez do autor. Mais uma característica curiosa destes dois contos: em ambos aparecem, ou são mencionados de passagem, personagens de obras anteriores — Gente Pobre e “Coração Fraco” — urdindo-se desta forma uma história ampliada em que se completam as linhas de vida e as características dos heróis. Nétotchka Nezvánovna estava para ser um romance (ficou inacabado) em que, durante os dois anos em que trabalhou nele, Dostoiévski depositava grandes esperanças, e que devia ter três partes: “A infância’, ‘A vida nova” e “O segredo”. Porém, em Abril de 1849, Dostoiévski foi preso por participar no círculo revolucionário de Mikhail Petrachévski, e o trabalho nesta obra foi interrompido. Posteriormente, em 1860, Dostoiévski introduziu no texto grandes modificações, transformando o começo do romance num conto sobre a infância e a adolescência da heroína. O Pequeno Herói foi escrito no Verão de 1841 na cela solitária da Fortaleza de Pedro e Paulo. A imagem da criança neste conto é tratada de maneira muito diferente da que o escritor tinha habitualmente para descrever as crianças: como pequenas criaturas sofredoras, privadas de infância, como viva acusação a uma sociedade desumana. Neste conto, porém, a criança dá uma imagem clara e harmoniosa da sua idade feliz, desenvolvendo a sua capacidade de compreender a beleza da natureza e do rosto humano, sentindo as primeiras centelhas do amor. Trata-se de uma figura quase romântica, criada sob a influência de Friedrich Schiller, cuja obra, para o Dostoiévski dos anos 40, encarnava o heroísmo dos sentimentos humanos e o ideal do belo e do sublime.

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