Este volume reúne dois textos ficcionais de Fiódor Dostoiévski que se articulam não pelo gênero, mas por aquela percepção extremamente aguçada que tende a descobrir, por meio da ironia e do confronto entre diferentes pontos de vista, os ângulos mais incomuns da realidade.
Em O sonho do titio, de 1859 – ano em que o escritor retorna a São Petersburgo após um longo período de exílio na Sibéria -, a narrativa toma a forma da comédia de costumes e da crônica de província para promover um desmascaramento geral da sociedade russa, particularmente de sua aristocracia às vésperas de importantes transformações históricas, que ela parece absolutamente não enxergar.
Já em Sonhos de Petersburgo…, folhetim de 1861, Dostoiévski apaga deliberadamente as fronteiras entre a prosa e a poesia para construir uma visão ao mesmo tempo crítica, cômica e fantástica da cidade construída por Pedro, o Grande – tudo isso vazado num registro que oscila entre o devaneio, a epifania e a mais lúcida observação. Em comum, os dois sonhos de Dostoiévski – traduzidos por Paulo Bezerra diretamente do original russo – trazem o impulso do humor anárquico de Nikolai Gógol (1809-1852), que subverte as expectativas e, com as armas do absurdo e do nonsense, renova de modo surpreendente o nosso olhar sobre o mundo.

Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski nasceu em Moscou a 30 de outubro de 1821, e estreou na literatura com Gente pobre, em 1846. Após ser preso e condenado à morte pelo regime czarista em 1849, teve sua pena comutada para quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria, experiência retratada em Recordações da casa dos mortos (1862). Após esse período, escreve uma sequência de grandes romances, como Crime e castigo e O idiota, culminando com a publicação de Os irmãos Karamazov em 1880. Reconhecido como um dos maiores autores de todos os tempos, Dostoiévski morreu em São Petersburgo, a 28 de janeiro de 1881.

  

Deixe uma resposta