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Cinema E Literatura: Traduções Intersemióticas discorre sobre as várias formas de constituição de textos abrangidos pelo título na produção estética brasileira das quatro últimas décadas. Refletir sobre um dos modos importantes de nossa produção ficcional é a que se debruça Lícia Soares de Souza.
O trânsito de textos da literatura ao cinema avolumou-se nos últimos quarenta anos, coincidindo também com as condições em que se observa a emergência do pós-moderno.
A autora busca analisar o modo como se processa esse diálogo entre textos ficcionais, documentos de memória e a produção cinematográfica. Para tanto, aborda obras que se apropriam de temas históricos, políticos e a contemporaneidade urbana.
A violência é o eixo que reúne o corte efetuado para as análises, indo, tematicamente, de Guerra de Canudos, de Sérgio Resende, a Tropa de elite, de José Padilha.
Esta grande contribuição prática do livro aos estudos literários e da semiologia do cinema vem precedida de todo um aporte teórico que situa o
leitor na compreensão da estética da violência entre nós.
Lícia Souza dá continuidade nessa obra a uma série de análises meticulosas de sua larga carreira de ensaísta, ficcionista e docente, realizada entre Canadá, França e Bahia e ilustrada, exemplarmente, no veio comparativo de Utopies américaines au Québec et au Brésil.
Fiel a uma abordagem piercieana e ao compromisso docente, divide a obra em duas partes, bem ao modo de útil manual acadêmico.
A primeira se apresenta como propedêutica, discutindo fundamentos teóricos e críticos, que irão embasar as análises empreendidas na última. Aqui discute a situação da literatura brasileira no contexto da globalização e o cinema na situação pósmoderna. Busca o entendimento da recente literatura brasileira no contexto da globalização cultural e do cinema na nossa pós-modernidade.
Partindo da semiótica pierceana, a autora estabelece firme correlação entre essa e elementos de outras abordagens teóricas de prestígio, correntes no meio acadêmico atual, tais como as originadas da contribuição de M. Bakhtin, dos pós-estruturalistas franceses e dos cultural studies.
As análises efetuadas das transcriações das narrativas literárias, documentais e memorialísticas em linguagem fílmica – segunda parte do livro – mostram-se, assim, inovadoras, revelando inusitada argúcia na apreciação dos textos artísticos e documentais.
Contemplam traduções para o cinema de obras que descentram a visada da violência na cultura brasileira recente, como obras de António Callado, Fernando Gabeira, Érico Veríssimo, Emiliano José e Oldack Miranda, Guimarães Rosa e Paulo Lins.
Cinema E Literatura: Traduções Intersemióticas constitui-se, assim, em importante contribuição à crítica artística e cultural do momento, atualizando e inaugurando leituras que põem em discussão a inscrição dessas obras nos predicados questionadores de estéticas do pós-colonial e do pósmoderno.
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