Naomi Klein – A Doutrina Do Choque: A Ascensão Do Capitalismo Do Desastre

Tragédia em Nova Orleans 2005.

Enquanto o mundo assiste ao flagelo dos moradores com as inundações causadas por tempestades que estouraram os diques da cidade o economista Milton Friedman apresenta no jornal The Wall Street Journal uma ideia radical.

Aos 93 anos de idade e com a saúde debilitada o papa da economia liberal das últimas cinco décadas vislumbrava naquele desastre uma oportunidade de ouro para o capitalismo: “A maior parte das escolas de Nova Orleans está em ruínas” observou. “É uma oportunidade para reformar radicalmente o sistema educacional”.

Para Friedman melhor do que gastar uma parte dos bilhões de dólares do dinheiro da reconstrução refazendo e melhorando o sistema escolar público o governo deveria fornecer vouchers para as famílias que poderia gastá-los nas instituições privadas. Estas teriam subsídio estatal.

A privatização proposta seria não uma solução emergencial mas uma reforma permanente. A ideia deu certo. Enquanto o conserto dos diques e a reparação da rede elétrica seguiam a passos lentos o leilão do sistema educacional se tornava realidade em tempo recorde.

É com a lembrança desse episódio que a jornalista e escritora canadense Naomi Klein inicia o instigante e original A Doutrina Do Choque.

A descrição da tática de Milton Friedman é o ponto de partida para identificar a doutrina do choque do capitalismo contemporâneo: espera-se uma grave crise vende-se parte do Estado para investidores privados enquanto os cidadãos ainda se recuperam do choque e depois transformam-se as reformas em mudanças permanentes.

“Este livro é uma contestação da suposição mais fundamental e acalentada da história oficial” escreve Naomi “a de que o triunfo do capitalismo desregulado nasceu da liberdade de que mercados não-regulados caminham passo a passo com a democracia”.

Com esse ataque à história do capitalismo A Doutrina Do Choque poderia ser somente mais um libelo contra o neoliberalismo a crença no livre-mercado que se tornou hegemônica do mundo a partir dos anos 70 e seus resultados decepcionantes segundo os críticos em matéria de crescimento econômico e justiça social.

Mas não é.

Um dos méritos do livro ressaltado pelo jornal The Guardian é fazer paralelos entre processos de desenvolvimento aparentemente distintos. O exame da história descrita pela jornalista mostra que as afinidades são justamente entre as políticas de “terapia de choque” impostas em favor de reformas pró-mercado e as técnicas de tortura segundo ela rotineiramente usadas pelos EUA no curso da “guerra contra o terror”.

A tortura no caso do capitalismo constitui uma metáfora para a tentativa neoliberal de padronizar sociedades diferentes em favor de um modelo supostamente mais racional.

   

 

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