Pedro Henrique Magalhães Queiroz – Rústico

Rústico: em lugar e vez de ter saudades celebra o ouro que não teve e denuncia que era falso, como todo ouro, que nem é coisa de comer.

Pedro Henrique Magalhães Queiroz – Rústico

Há livros que são o reflexo, a homenagem impotente, o velório prematuro ou o choro, mas ainda assim muita vez belo, do livro que não se fez, do ouro que não se teve nas mãos nem sob os pés, a riqueza de uma eterna segurança não mais que sonhada, quando a palavra contempla a palavra e o resto se esquece; há livros, por outro lado, que são o acidente de desesperadamente querer dizer alguma coisa, gritar pela certeza da própria voz, mas a gente se acovarda porque tem ninguém ouvindo não ou porque tem é gente demais: era um pouco, sim, o sentimento de 1998, que fingiram que esqueceram, de quando limparam Fortaleza, mas limparam foi da gente que vivia aqui, na rua daqui, porque o Banco Interamericano do Desenvolvimento precisava passar como se fosse uma pessoa que tivesse pés, e passou, e os pés não eram os pés dos seus representantes de carne e osso: era mesmo, sem que ninguém pudesse ver, um corpo enorme que passava, mas no ar se sentia o peso.

Protestaram. Essa ocasião, e outras. O nome do ex-sociólogo Fernando Henrique Cardoso, o único da categoria, era gritado por bocas agressivas: eu lembro: era quase uma esperança de respiração, tanto que os nomes de alguns tantos foram parar numa lista do jornal escandalizado, que eram perigosíssimas pessoas. Pois não era gente que quisesse por dentro e por fora pichar os muros da universidade pública, mas derribar, descobrir, aliás, que o dentro das paredes, o por trás do reboco, é coisa de tijolo velho, amarelado, que já se esfarela. Assim o Rústico: em lugar e vez de ter saudades celebra o ouro que não teve e denuncia que era falso, como todo ouro, que nem é coisa de comer.

A saúde mental do Pedro Henrique, que sabe que nem todo dia é dia de tomar cachaça, mesmo que passe a manhã perigando chover, ou seja, uma saúde mental mais forte que a minha, fez que o seu grito abusado evitasse a via do ressentimento, que, em mim, a mim tanto me diverte: sei que se há de tratar coisas assim, mas eu nem sempre acredito no esquecimento e no perdão. Em comum ainda há a consciência de que é preciso lembrar, o que, em filosofia, torna todos os passados camadas do presente.

Clique para
Baixar o PDF

Deixe uma resposta

Pedro Henrique Magalhães Queiroz – Rústico

Rústico: em lugar e vez de ter saudades celebra o ouro que não teve e denuncia que era falso, como todo ouro, que nem é coisa de comer.

Pedro Henrique Magalhães Queiroz - Rústico

Há livros que são o reflexo, a homenagem impotente, o velório prematuro ou o choro, mas ainda assim muita vez belo, do livro que não se fez, do ouro que não se teve nas mãos nem sob os pés, a riqueza de uma eterna segurança não mais que sonhada, quando a palavra contempla a palavra e o resto se esquece; há livros, por outro lado, que são o acidente de desesperadamente querer dizer alguma coisa, gritar pela certeza da própria voz, mas a gente se acovarda porque tem ninguém ouvindo não ou porque tem é gente demais: era um pouco, sim, o sentimento de 1998, que fingiram que esqueceram, de quando limparam Fortaleza, mas limparam foi da gente que vivia aqui, na rua daqui, porque o Banco Interamericano do Desenvolvimento precisava passar como se fosse uma pessoa que tivesse pés, e passou, e os pés não eram os pés dos seus representantes de carne e osso: era mesmo, sem que ninguém pudesse ver, um corpo enorme que passava, mas no ar se sentia o peso.

Protestaram. Essa ocasião, e outras. O nome do ex-sociólogo Fernando Henrique Cardoso, o único da categoria, era gritado por bocas agressivas: eu lembro: era quase uma esperança de respiração, tanto que os nomes de alguns tantos foram parar numa lista do jornal escandalizado, que eram perigosíssimas pessoas. Pois não era gente que quisesse por dentro e por fora pichar os muros da universidade pública, mas derribar, descobrir, aliás, que o dentro das paredes, o por trás do reboco, é coisa de tijolo velho, amarelado, que já se esfarela. Assim o Rústico: em lugar e vez de ter saudades celebra o ouro que não teve e denuncia que era falso, como todo ouro, que nem é coisa de comer.

A saúde mental do Pedro Henrique, que sabe que nem todo dia é dia de tomar cachaça, mesmo que passe a manhã perigando chover, ou seja, uma saúde mental mais forte que a minha, fez que o seu grito abusado evitasse a via do ressentimento, que, em mim, a mim tanto me diverte: sei que se há de tratar coisas assim, mas eu nem sempre acredito no esquecimento e no perdão. Em comum ainda há a consciência de que é preciso lembrar, o que, em filosofia, torna todos os passados camadas do presente.

Clique para
Baixar o PDF

Deixe uma resposta