A Linha De Sombra

A Linha De Sombra conta a história de um capitão de primeira viagem lançado ao mar para realizar uma travessia, a da juventude à vida madura. Não há cenário melhor do que o mar para se deixar de ser jovem, daquela maneira descuidada e ardente, nas palavras do autor, e tornar-se adulto, mais autoconsciente e pungente.
O mar força a ação, querendo ou não, deve-se agir. Lidar com o vento, com a tripulação e com a própria consciência - inquiridora recorrente quando se está no meio de um oceano - são momentos de precipitação oportunos nesse caminho do qual se pode afastar-se, mas não escapar. Dele não fugiu um rapaz polonês, que aos 21 anos já perdera os pais, tentara o suicídio e se aventurara em navios mercantes.


Essa não é descrição de mais um personagem, mas sim do próprio autor. Conrad esteve nos lugares que descreve tão bem; conheceu figuras enigmáticas, como o capitão Gilles, paranoicas, como Mr. Burns e prestimosas, como Gambril. E, como muitos de seus heróis, rearrumou a memória e narrou o que viu, ouviu e viveu.
A presente história, que apesar de breve é uma obra um tanto complexa, não foi concebida de modo a tocar em assuntos sobrenaturais. Contudo, mais de um crítico sentiu-se inclinado a interpretá-la assim, vendo nela uma tentativa minha de dar maior liberdade à imaginação enquanto eu a conduzia para além dos limites terrenos da humanidade que vive e sofre. Mas a verdade é que a minha imaginação não é assim tão fértil.
Creio que, se eu tentasse impor à história o peso do Sobrenatural, ela seria um fracasso estrondoso e apresentaria falhas um tanto indesejáveis. Porém, eu jamais poderia almejar coisa semelhante, pois todo o meu ser moral e intelectual é perpassado por uma convicção invencível de que tudo quanto passa despercebido a nossos sentidos deve ser obra da natureza e, por mais excepcional que pareça, tem essência idêntica a todos os fenômenos do mundo visível e tangível do qual sabemos fazer parte.
O mundo dos vivos encerra maravilhas e mistérios suficientes tal como se apresenta; maravilhas e mistérios que agem sobre nossas emoções e nossa inteligência de maneiras tão inexplicáveis que quase bastariam para justificar a concepção da vida como um estado de encanto. Não, minha crença no maravilhoso é demasiado forte para que eu alguma vez me deixe fascinar pelo mero sobrenatural, que (entendam como quiserem) não passa de um produto fabricado, uma fabricação de mentes insensíveis às mais íntimas sutilezas das relações que mantemos com os vivos e os mortos em suas incontáveis multidões; uma profanação de nossas lembranças mais ternas; um atentado à nossa dignidade.

 

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A Linha De Sombra conta a história de um capitão de primeira viagem lançado ao mar para realizar uma travessia, a da juventude à vida madura. Não há cenário melhor do que o mar para se deixar de ser jovem, daquela maneira descuidada e ardente, nas palavras do autor, e tornar-se adulto, mais autoconsciente e pungente.
O mar força a ação, querendo ou não, deve-se agir. Lidar com o vento, com a tripulação e com a própria consciência – inquiridora recorrente quando se está no meio de um oceano – são momentos de precipitação oportunos nesse caminho do qual se pode afastar-se, mas não escapar. Dele não fugiu um rapaz polonês, que aos 21 anos já perdera os pais, tentara o suicídio e se aventurara em navios mercantes.
Essa não é descrição de mais um personagem, mas sim do próprio autor. Conrad esteve nos lugares que descreve tão bem; conheceu figuras enigmáticas, como o capitão Gilles, paranoicas, como Mr. Burns e prestimosas, como Gambril. E, como muitos de seus heróis, rearrumou a memória e narrou o que viu, ouviu e viveu.
A presente história, que apesar de breve é uma obra um tanto complexa, não foi concebida de modo a tocar em assuntos sobrenaturais. Contudo, mais de um crítico sentiu-se inclinado a interpretá-la assim, vendo nela uma tentativa minha de dar maior liberdade à imaginação enquanto eu a conduzia para além dos limites terrenos da humanidade que vive e sofre. Mas a verdade é que a minha imaginação não é assim tão fértil.
Creio que, se eu tentasse impor à história o peso do Sobrenatural, ela seria um fracasso estrondoso e apresentaria falhas um tanto indesejáveis. Porém, eu jamais poderia almejar coisa semelhante, pois todo o meu ser moral e intelectual é perpassado por uma convicção invencível de que tudo quanto passa despercebido a nossos sentidos deve ser obra da natureza e, por mais excepcional que pareça, tem essência idêntica a todos os fenômenos do mundo visível e tangível do qual sabemos fazer parte.
O mundo dos vivos encerra maravilhas e mistérios suficientes tal como se apresenta; maravilhas e mistérios que agem sobre nossas emoções e nossa inteligência de maneiras tão inexplicáveis que quase bastariam para justificar a concepção da vida como um estado de encanto. Não, minha crença no maravilhoso é demasiado forte para que eu alguma vez me deixe fascinar pelo mero sobrenatural, que (entendam como quiserem) não passa de um produto fabricado, uma fabricação de mentes insensíveis às mais íntimas sutilezas das relações que mantemos com os vivos e os mortos em suas incontáveis multidões; uma profanação de nossas lembranças mais ternas; um atentado à nossa dignidade.

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