João Guimarães Rosa – No Urubuquaquá, No Pinhém

João Guimarães Rosa – No Urubuquaquá, No Pinhém

No Urubuquaquá, No Pinhém é composto por três novelas, cujos personagens principais são idosos, com uma percepção que transcende o habitual: Gorgulho, o velhote esquisito e solitário de “O recado do morro”, ouve um enigma a ser repetido, divulgado, transformado; “Cara-de-Bronze”, paralisado pela doença, entra em contato com a poesia das paisagens e dos lugares de sua origem pelas palavras de outros vaqueiros; Dona Rosalina, a Lina de “A estória de Lélio e Lina” a quem, pela leveza dos gestos e o brilho da voz, Lélio confunde com uma mocinha apanhando gravetos na estrada, partilha com o jovem sua sabedoria a respeito das coisas do amor.

Em “O recado do morro”, testemunha-se a gênese de uma canção que se cristaliza imperceptível e acessoriamente no decorrer de uma expedição científica. Brotada de um germe caído no perturbado espírito de um louco, alimentada e desenvolvida pela colaboração ocasional de outros lunáticos, acaba nas mãos de um bardo popular que lhe dá forma e sentido.

A viagem da comitiva e o nascimento da canção operam-se simultaneamente, e a conclusão desta prefigura o fim trágico daquela. Um recado infralógico da atmosfera e da paisagem transmuda-se em verso através da cooperação de uma sequela de anormais, de senso embotado mas de sentidos apurados.

Cara-de-Bronze, o menor e o mais difícil dos três “contos”, em que se multiplicam as armadilhas, e os contornos de uma história são apenas esboçados. Chegado à fazenda do Urubuquaquá, um forasteiro se esforça para compor, com os depoimentos fragmentários dos vaqueiros, o retrato do velho fazendeiro apelidado Cara-de-Bronze, o qual, doente recluso em seu quarto, administra a sua propriedade.

Nenhuma das qualidades da personagem invisível — nem sequer o nome — deixa de provocar apreciações contraditórias, fazendo entrever em plano mais geral a impossibilidade de um conhecimento objetivo da realidade humana.

Outro mistério que intriga ao enigmático Moimeichêgo (e ao leitor também) é a natureza da missão confiada por Cara-de-Bronze a um vaqueiro escolhido com cuidado, o qual volta à fazenda depois de prolongada ausência.

De suas respostas às perguntas dos camaradas se depreende que a sua missão, cujo sentido ele intui sem poder defini-lo, consistiu em trazer ao moribundo paralítico uma multidão de observações aparentemente desconexas e frívolas de seu antigo mundo, elementos que lhe permitissem reconstruir para o seu próprio uso a realidade íntima do passado, uma visão poética do seu universo.

A estória de Lélio e Lina, a inverossímil aventura do vaqueiro Lélio na fazenda do Pinhém, de onde ele sai raptando uma velha senhora que poderia ser sua mãe, e a quem só o ligam laços de simpatia.

No tecido grosso e palpável de uma história toda real — com desfile de vaqueiros de diversos tipos, cenas da vida pastoril, as fases da adaptação de Lélio a seus novos camaradas, as suas experiências sexuais —, o episódio feérico dessa extraordinária amizade entre a velha sábia e folgazã e o jovem pastor de imaginação quimérica se destaca sem nada grotesco ou absurdo, com uma naturalidade serena.


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João Guimarães Rosa – No Urubuquaquá, No Pinhém

João Guimarães Rosa - No Urubuquaquá, No Pinhém

No Urubuquaquá, No Pinhém é composto por três novelas, cujos personagens principais são idosos, com uma percepção que transcende o habitual

: Gorgulho, o velhote esquisito e solitário de “O recado do morro”, ouve um enigma a ser repetido, divulgado, transformado; “Cara-de-Bronze”, paralisado pela doença, entra em contato com a poesia das paisagens e dos lugares de sua origem pelas palavras de outros vaqueiros; Dona Rosalina, a Lina de “A estória de Lélio e Lina” a quem, pela leveza dos gestos e o brilho da voz, Lélio confunde com uma mocinha apanhando gravetos na estrada, partilha com o jovem sua sabedoria a respeito das coisas do amor.

Em “O recado do morro”, testemunha-se a gênese de uma canção que se cristaliza imperceptível e acessoriamente no decorrer de uma expedição científica. Brotada de um germe caído no perturbado espírito de um louco, alimentada e desenvolvida pela colaboração ocasional de outros lunáticos, acaba nas mãos de um bardo popular que lhe dá forma e sentido.

A viagem da comitiva e o nascimento da canção operam-se simultaneamente, e a conclusão desta prefigura o fim trágico daquela. Um recado infralógico da atmosfera e da paisagem transmuda-se em verso através da cooperação de uma sequela de anormais, de senso embotado mas de sentidos apurados.

Cara-de-Bronze, o menor e o mais difícil dos três “contos”, em que se multiplicam as armadilhas, e os contornos de uma história são apenas esboçados. Chegado à fazenda do Urubuquaquá, um forasteiro se esforça para compor, com os depoimentos fragmentários dos vaqueiros, o retrato do velho fazendeiro apelidado Cara-de-Bronze, o qual, doente recluso em seu quarto, administra a sua propriedade.

Nenhuma das qualidades da personagem invisível — nem sequer o nome — deixa de provocar apreciações contraditórias, fazendo entrever em plano mais geral a impossibilidade de um conhecimento objetivo da realidade humana.

Outro mistério que intriga ao enigmático Moimeichêgo (e ao leitor também) é a natureza da missão confiada por Cara-de-Bronze a um vaqueiro escolhido com cuidado, o qual volta à fazenda depois de prolongada ausência.

De suas respostas às perguntas dos camaradas se depreende que a sua missão, cujo sentido ele intui sem poder defini-lo, consistiu em trazer ao moribundo paralítico uma multidão de observações aparentemente desconexas e frívolas de seu antigo mundo, elementos que lhe permitissem reconstruir para o seu próprio uso a realidade íntima do passado, uma visão poética do seu universo.

A estória de Lélio e Lina, a inverossímil aventura do vaqueiro Lélio na fazenda do Pinhém, de onde ele sai raptando uma velha senhora que poderia ser sua mãe, e a quem só o ligam laços de simpatia.

No tecido grosso e palpável de uma história toda real — com desfile de vaqueiros de diversos tipos, cenas da vida pastoril, as fases da adaptação de Lélio a seus novos camaradas, as suas experiências sexuais —, o episódio feérico dessa extraordinária amizade entre a velha sábia e folgazã e o jovem pastor de imaginação quimérica se destaca sem nada grotesco ou absurdo, com uma naturalidade serena.


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