Edviges Marta Ioris – Uma Floresta De Disputas

Uma Floresta De Disputas aborda a transformação nas paisagens naturais e nas organizações sociais decorrentes das políticas oficiais do Estado

Edviges Marta Ioris – Uma Floresta De Disputas: Conflitos Sobre Espaços, Recursos E Identidades Sociais Na Amazônia

Uma Floresta De Disputas aborda os processos de transformação nas paisagens naturais e nas organizações sociais decorrentes das políticas oficiais do Estado, tendo como foco de análise a criação e o estabelecimento de reservas ambientais na Amazônia brasileira.

Especificamente, a análise se debruça sobre a Floresta Nacional do Tapajós (Flona Tapajós), uma reserva florestal criada pelo governo federal em 1974, no município de Santarém, sudoeste do estado do Pará, na região do baixo rio Tapajós.

A Flona Tapajós foi a primeira reserva florestal governamental criada e implantada na região amazônica, com o objetivo de promover a pesquisa e a exploração planejada dos recursos florestais madeireiros. A sua implantação, entretanto, gerou longos e intensos conflitos com as populações locais, os quais se estendem por toda a sua existência.

Em que pesem as diferenças nas configurações histórias e nas organizações sociopolíticas e culturais dessas comunidades, a maioria das pessoas que lá se encontram constituía-se de descendentes de indígenas, apresentando antiga e estreita relação com a sociedade ocidental.

De forma geral, elas têm sido amplamente identificadas como caboclo(a), ainda que em sua maioria não se reconheçam por tal denominação. Ao invés, quando da realização do levantamento em 1996, eu encontrei as pessoas se identificando de várias formas, dentre as quais “trabalhadores rurais”, “descendentes de indígenas”, “filho do Tapajós” (em referência a seu nascimento às margens do rio Tapajós); ou, mais frequentemente, como pertencentes a uma determinada comunidade: “Sou da comunidade de Piquiatuba”; “Sou da comunidade de Taquara”, “Sou da comunidade de Acaratinga”, e assim por diante.

Em momento algum ouvi as pessoas se identificando como “caboclo” ou “cabocla”, exceto alguns líderes comunitários, enquanto participavam de reuniões para discutir sobre posse e regularização da terra. Nestes momentos eles reivindicavam direitos territoriais, justificando-os porque “somos caboclos do Tapajós”.

No capítulo 2 veremos que na região amazônica o termo “caboclo” pertence a uma controversa e multifacetada categoria social, largamente aplicada às sociedades miscigenadas que se originaram de descendentes ameríndios de épocas pré-coloniais e de europeus pobres. Alguns antropólogos têm usado o termo “caboclo” para se referir à conformação de um campesinato tipicamente amazônico.


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Uma Floresta De Disputas aborda a transformação nas paisagens naturais e nas organizações sociais decorrentes das políticas oficiais do Estado

Edviges Marta Ioris - Uma Floresta De Disputas: Conflitos Sobre Espaços, Recursos E Identidades Sociais Na Amazônia

Uma Floresta De Disputas aborda os processos de transformação nas paisagens naturais e nas organizações sociais decorrentes das políticas oficiais do Estado, tendo como foco de análise a criação e o estabelecimento de reservas ambientais na Amazônia brasileira.

Especificamente, a análise se debruça sobre a Floresta Nacional do Tapajós (Flona Tapajós), uma reserva florestal criada pelo governo federal em 1974, no município de Santarém, sudoeste do estado do Pará, na região do baixo rio Tapajós.

A Flona Tapajós foi a primeira reserva florestal governamental criada e implantada na região amazônica, com o objetivo de promover a pesquisa e a exploração planejada dos recursos florestais madeireiros. A sua implantação, entretanto, gerou longos e intensos conflitos com as populações locais, os quais se estendem por toda a sua existência.

Em que pesem as diferenças nas configurações histórias e nas organizações sociopolíticas e culturais dessas comunidades, a maioria das pessoas que lá se encontram constituía-se de descendentes de indígenas, apresentando antiga e estreita relação com a sociedade ocidental.

De forma geral, elas têm sido amplamente identificadas como caboclo(a), ainda que em sua maioria não se reconheçam por tal denominação. Ao invés, quando da realização do levantamento em 1996, eu encontrei as pessoas se identificando de várias formas, dentre as quais “trabalhadores rurais”, “descendentes de indígenas”, “filho do Tapajós” (em referência a seu nascimento às margens do rio Tapajós); ou, mais frequentemente, como pertencentes a uma determinada comunidade: “Sou da comunidade de Piquiatuba”; “Sou da comunidade de Taquara”, “Sou da comunidade de Acaratinga”, e assim por diante.

Em momento algum ouvi as pessoas se identificando como “caboclo” ou “cabocla”, exceto alguns líderes comunitários, enquanto participavam de reuniões para discutir sobre posse e regularização da terra. Nestes momentos eles reivindicavam direitos territoriais, justificando-os porque “somos caboclos do Tapajós”.

No capítulo 2 veremos que na região amazônica o termo “caboclo” pertence a uma controversa e multifacetada categoria social, largamente aplicada às sociedades miscigenadas que se originaram de descendentes ameríndios de épocas pré-coloniais e de europeus pobres. Alguns antropólogos têm usado o termo “caboclo” para se referir à conformação de um campesinato tipicamente amazônico.


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