Aurélio Schommer – História Do Brasil Vira-Lata

Nelson Rodrigues associou o adjetivo canino vira-lata à tradição autodepreciativa brasileira, mas não inventou essa última. Ela é tão antiga quanto o Brasil. Tirando o doce relato de Caminha, tudo o mais, ou quase, é lamento e acusação. Brasileiros desprezando brasileiros, na fórmula tantas vezes repetida: “O país é uma beleza, mas o povo…”.
Sim, Tiradentes teria “morrido por nós”, a Independência teria sido um “brado retumbante”, mas é só. O resto é um desfile de mazelas e azares de um povo indolente e descuidado.
A história de Tiradentes como é contada nos bancos escolares é uma coleção de distorções, demonstrar-se-á aqui. A Independência foi demandada por deputados portugueses, o filho só se separou do pai porque foi rejeitado por este, não por valentia ou desejo de emancipação. E quanto às mazelas e azares, não foi bem assim.
O propósito desta obra é demonstrar que a tradição autodepreciativa foi construída em cima de fatos e mitos, mais de mitos que de fatos. Mitos sobre índios, esses eternos estrangeiros. Mitos sobre africanos, eternos coitadinhos.
Mitos sobre portugueses, eternos bodes expiatórios. Mitos sobre os estrangeiros, ora vilões exploradores, ora o imigrante brioso que teria feito sozinho a obra da qual os antigos e indolentes brasileiros seriam incapazes. Mitos sobre a sexualidade exacerbada, irrefreável. Mitos sobre a carência mais óbvia dos nacionais: a falta de letramento.
Nelson Rodrigues disse: “O brasileiro não tem motivos pessoais ou históricos para a autoestima”. Ao mesmo tempo, é otimista quanto ao futuro, otimismo baseado no único fator de esperança desde a fundação: riquezas naturais. Não há horizonte alvissareiro possível se a base for essa, mostrar-se-á na conclusão. E o passado não condena. Nelson Rodrigues e todos os outros estão mais errados do que certos.
Esta obra é um inventário sobre as causas, reais ou ideologicamente construídas, da tradição vira-lata, autodepreciativa, brasileira.
As consequências são por si só autodepreciativas.
Ou não?


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Aurélio Schommer – História Do Brasil Vira-Lata

Nelson Rodrigues associou o adjetivo canino vira-lata à tradição autodepreciativa brasileira, mas não inventou essa última. Ela é tão antiga quanto o Brasil. Tirando o doce relato de Caminha, tudo o mais, ou quase, é lamento e acusação.

Brasileiros desprezando brasileiros, na fórmula tantas vezes repetida: “O país é uma beleza, mas o povo...”.
Sim, Tiradentes teria “morrido por nós”, a Independência teria sido um “brado retumbante”, mas é só. O resto é um desfile de mazelas e azares de um povo indolente e descuidado.
A história de Tiradentes como é contada nos bancos escolares é uma coleção de distorções, demonstrar-se-á aqui. A Independência foi demandada por deputados portugueses, o filho só se separou do pai porque foi rejeitado por este, não por valentia ou desejo de emancipação. E quanto às mazelas e azares, não foi bem assim.
O propósito desta obra é demonstrar que a tradição autodepreciativa foi construída em cima de fatos e mitos, mais de mitos que de fatos. Mitos sobre índios, esses eternos estrangeiros. Mitos sobre africanos, eternos coitadinhos.
Mitos sobre portugueses, eternos bodes expiatórios. Mitos sobre os estrangeiros, ora vilões exploradores, ora o imigrante brioso que teria feito sozinho a obra da qual os antigos e indolentes brasileiros seriam incapazes. Mitos sobre a sexualidade exacerbada, irrefreável. Mitos sobre a carência mais óbvia dos nacionais: a falta de letramento.
Nelson Rodrigues disse: “O brasileiro não tem motivos pessoais ou históricos para a autoestima”. Ao mesmo tempo, é otimista quanto ao futuro, otimismo baseado no único fator de esperança desde a fundação: riquezas naturais. Não há horizonte alvissareiro possível se a base for essa, mostrar-se-á na conclusão. E o passado não condena. Nelson Rodrigues e todos os outros estão mais errados do que certos.
Esta obra é um inventário sobre as causas, reais ou ideologicamente construídas, da tradição vira-lata, autodepreciativa, brasileira.
As consequências são por si só autodepreciativas.
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