Antonio Carlos Secchin – João Cabral: A Poesia Do Menos E Outros Ensaios Cabralinos

Antonio Carlos Secchin – João Cabral: A Poesia Do Menos E Outros Ensaios Cabralinos

Este livro procura interpretar a poesia de João Cabral de Melo Neto a partir da hipótese de que ela se constrói sob o prisma do menos. Com isso, queremos dizer que a criação de seus textos é deflagrada por uma ótica de desconfiança frente ao signo linguístico, sempre visto como portador de um transbordamento de significado.
Amputar do signo esse excesso é praticar o que denominamos a poesia do menos.

Mas, para João Cabral, desvincular a palavra de uma tradição retórica não é suficiente: a desconfiança do poeta incide tanto na antiga ordem de significações do signo quanto na nova ordem em que ele o instala.

Daí sua poesia frequentemente confessar-se como um ponto de vista (histórico) sobre a linguagem, e não como um neutro espaço de onde as palavras emanariam resgatadas numa pureza original.

Nosso trabalho consistirá, também, em mostrar a articulação dialética entre a palavra esvaziada do poema e o espaço cultural e social que ela incorpora, balizado igualmente pelos metros da carência e do desfalque.

Se a obra cabralina comporta essa linha de análise, é evidente que ela não se esgota. Por isso, sobre enfatizarmos os processos especificamente ligados à nossa proposta geral, procuramos depreender outros aspectos a ela não imediatamente vinculados, mas também relevantes para a compreensão da poesia do autor.

Tais aspectos podem, ainda, não ser os mesmos de livro a livro; assim, o estudo minudente dos esquemas rímicos, fundamental para que se perceba a construção de sentido em Serial, se revelaria bem menos eficaz se efetuado em Museu de tudo, cujo discurso se pauta por outros fatores de organização.

Como, além dos pontos básicos ramificados nos textos de João Cabral, persistem questões que, menos privilegiadas no conjunto, o serão em determinado grupo de poemas, parece-nos desejável que o olhar do crítico busque acompanhar a multiplicidade de direções que o poeta vem imprimindo a sua obra, e que não tente reduzi-la a um único esquema analítico previamente eleito, de que os textos, anulados de suas (às vezes, radicais) diferenças, seriam a mera confirmação.


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Antonio Carlos Secchin – João Cabral: A Poesia Do Menos E Outros Ensaios Cabralinos

Antonio Carlos Secchin - João Cabral: A Poesia Do Menos E Outros Ensaios Cabralinos

Este livro procura interpretar a poesia de João Cabral de Melo Neto a partir da hipótese de que ela se constrói sob o prisma do menos. Com isso, queremos dizer que a criação de seus textos é deflagrada por uma ótica de desconfiança frente ao signo linguístico, sempre visto como portador de um transbordamento de significado.
Amputar do signo esse excesso é praticar o que denominamos a poesia do menos.

Mas, para João Cabral, desvincular a palavra de uma tradição retórica não é suficiente: a desconfiança do poeta incide tanto na antiga ordem de significações do signo quanto na nova ordem em que ele o instala.

Daí sua poesia frequentemente confessar-se como um ponto de vista (histórico) sobre a linguagem, e não como um neutro espaço de onde as palavras emanariam resgatadas numa pureza original.

Nosso trabalho consistirá, também, em mostrar a articulação dialética entre a palavra esvaziada do poema e o espaço cultural e social que ela incorpora, balizado igualmente pelos metros da carência e do desfalque.

Se a obra cabralina comporta essa linha de análise, é evidente que ela não se esgota. Por isso, sobre enfatizarmos os processos especificamente ligados à nossa proposta geral, procuramos depreender outros aspectos a ela não imediatamente vinculados, mas também relevantes para a compreensão da poesia do autor.

Tais aspectos podem, ainda, não ser os mesmos de livro a livro; assim, o estudo minudente dos esquemas rímicos, fundamental para que se perceba a construção de sentido em Serial, se revelaria bem menos eficaz se efetuado em Museu de tudo, cujo discurso se pauta por outros fatores de organização.

Como, além dos pontos básicos ramificados nos textos de João Cabral, persistem questões que, menos privilegiadas no conjunto, o serão em determinado grupo de poemas, parece-nos desejável que o olhar do crítico busque acompanhar a multiplicidade de direções que o poeta vem imprimindo a sua obra, e que não tente reduzi-la a um único esquema analítico previamente eleito, de que os textos, anulados de suas (às vezes, radicais) diferenças, seriam a mera confirmação.


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