Liev Tolstói – Anna Kariênina

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”

Esta é uma das aberturas mais famosas de todos os tempos, e ainda hoje impressiona a sabedoria concisa com que Tolstói introduz o leitor no universo de Anna Kariênina, clássico escrito entre 1873 e 1877.

Muito do que o romance vai mostrar está contido nesta frase.

A personagem-título, ao abandonar sua sólida posição social por um novo amor, e seguir esta opção até as últimas consequências, potencializa os dilemas amorosos, vividos dentro ou fora do casamento, de toda a ampla galeria de personagens que a circunda.

O amor, aqui, não é puro idealismo romântico. Tolstói recupera todo um século de experiência russa, com episódios e personagens modelados a partir de pessoas reais, e aborda as principais discussões políticas, econômicas e filosóficas de seu tempo, ainda incrivelmente atuais.

Anna Kariênina se articula por meio de contrates: a cidade e o campo; as cidades de Moscou e São Petersburgo; a alta sociedade e a vida dos mujiques; o intelectual e o homem prático.

Tolstói escreveu Anna Kariênina entre 1873 e 1877, em Iásnaia Poliana, sua vasta propriedade rural, onde residia, ao sul de Moscou. Estava à beira de completar 45 anos quando começou a redigir o livro. Era casado e tinha quatro filhos. Na década anterior, havia consolidado sua reputação com o romance Guerra E Paz, escrito entre 1863 e 1869.

Após terminar esse longo épico histórico, Tolstói dedicou-se aos afazeres agrícolas. Tentou implementar novos métodos de ensino, com os filhos dos mujiques, residentes em suas terras. Fundou escolas, elaborou e difundiu teorias e técnicas pedagógicas que causaram polêmica na Rússia, e estudou grego com afinco. Ao mesmo tempo, acumulava uma impressionante quantidade de informações sobre o tsar Pedro, o Grande.

Seu intuito era escrever um romance sobre a época em que Pedro I foi o imperador da Rússia, entre 1682 e 1725. Porém, por mais numerosos e minuciosos que fossem os seus conhecimentos sobre a vida naquele tempo, por mais que forçasse a mão a escrever, as páginas não o convenciam. Os personagens que esboçava não ganhavam vida em sua mente. Após tentativas obstinadas, Tolstói desistiu do projeto.

Nessa crise, veio-lhe à memória um fato ocorrido no ano anterior, em 1872. Um vizinho de Tolstói e seu parceiro de caçadas, chamado Bíbikov, vivia com uma mulher de nome Anna, que se tornara sua amante. Aos poucos, ele a abandonou em troca da preceptora alemã de seus filhos, com quem tinha, até, intenção de casar-se.

Em desespero, Anna recolheu alguns pertences, vagou pelo campo durante três dias e, por fim, jogou-se debaixo de um trem. Antes, redigiu um bilhete para Bíbikov: “Você é o meu assassino. Seja feliz, se um assassino puder ser feliz. Pode vir ver o meu cadáver, nos trilhos da estação de Iássenki, se quiser”.

Tolstói foi à estação, no dia seguinte, e presenciou a autópsia. As imagens da mulher e da estação ficaram registradas em sua memória, mas não tinham relação com nenhum projeto literário.

De outro lado, em 1870, ele chegara a nutrir a ideia de um relato sobre uma mulher adúltera, da alta sociedade. Durante um tempo, os dois temas levaram vidas independentes em seu pensamento. Quando a imaginação os uniu, Anna Kariênina começou a nascer.

   

 

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