Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável. Ele é uma espécie de confidente, que se nutre da vaidade, da ignorância ou da solidão das pessoas. Tal como a viúva confiante, que acorda um belo dia e descobre que aquele rapaz encantador e todas as suas economias sumiram, o indivíduo que consente em ser tema de um escrito não ficcional aprende — quando o artigo ou livro aparece — a sua própria dura lição. Os jornalistas justificam a própria traição de várias maneiras, de acordo com o temperamento de cada um. Os mais pomposos falam de liberdade de expressão e do “direito do público a saber”; os menos talentosos falam sobre a Arte; os mais decentes murmuram algo sobre ganhar a vida.
A catástrofe, para aquele que é tema do escrito, não é uma simples questão de um retrato pouco lisonjeiro, ou de uma apresentação errônea das suas opiniões; o que dói, o que envenena e algumas vezes o leva a extremos de desejo de vingança, é o engano de que foi vítima. Ao ler o artigo ou livro em questão, ele tem de enfrentar o fato de que o jornalista — que parecia tão amigável e solidário, tão interessado em entendê-lo plenamente, tão notavelmente sintonizado com o seu modo de ver as coisas — nunca teve a menor intenção de colaborar com ele na sua história, mas pretendia, o tempo todo, escrever a sua própria história. A disparidade entre o que parece ser a intenção de uma entrevista quando ela está acontecendo e aquilo que no fim ela estava de fato ajudando a fazer é sempre um choque para o entrevistado.
No verão de 1984, um entrevistado moveu contra um jornalista um processo surpreendente em que a narrativa subjacente de amor traído não foi traduzida em nenhuma dessas narrativas tradicionais, mas foi, em vez disso, contada abertamente — e, além disso, foi contada de modo tão convincente que, no julgamento, cinco dos seis jurados foram persuadidos de que um homem que estava cumprindo três sentenças consecutivas de prisão perpétua pelo assassinato da esposa e de duas filhas pequenas merecia mais simpatia que o escritor que o enganara.
O Jornalista e o Assassino relata a história do médico que, depois de condenado pelo assassinato da esposa e das duas filhas, processou o jornalista que escreveu um livro sobre ele.
Escrito por Janet Malcolm, o texto usa o caso para debater questões como a ética do jornalismo e a liberdade de imprensa.

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