A Paciência Do Conceito: Ensaio Sobre O Discurso Hegeliano – Neste conjunto de ensaios o filósofo francês Gérard Lebrun procura discutir e entender o discurso hegeliano, pondo a questão da regulação que o leitor deve adotar em relação ao Sistema hegeliano, afastando todos os juízos tradicionais sobre o andamento global do Sistema (monismo, otimismo, panlogismo, pantagrisno etc.).
Na origem deste trabalho há uma questão: o que pode significar o dogmatismo hegeliano? Todo filósofo, como se sabe, é dogmático por aquilo que deve pressupor.
Mas, de um autor que entendera abolir todo pressuposto, ouve-se outra coisa quando se diz: a certeza ultradogmática de habitar a Verdade enfim consumada, fechar a História e poder percorrer, com olhar de proprietário, todas as formas culturais, passadas e presentes.
Contra tal pretensão, os mais maledicentes põem, de pronto, o leitor em alerta; os mais bem intencionados ressaltam a irredutibilidade do desempenho hegeliano que, a seus olhos, contrabalançaria a megalomania do empreendimento.
Mas, afinal, por pouco não se chegou a duvidar de que haja dogmatismo no sentido mais trivial. É o caso de Hartmann:
Que o dinamismo do pensamento volte a trazer, em direção à coisa, a clareza de nosso olhar. Antes de tudo, tal pretensão é evidentemente metafísica.
Em Hegel, aliás, nenhum traço encontramos de uma demonstração de sua legitimidade. Para ele, a questão estava de antemão resolvida, na base de seu otimismo racionalista . . .
É inteiramente necessário que, pela espontaneidade de seu desdobramento e d e seu dinamismo, (a Razão) represente o desdobramento e o dinamismo espontâneos do mundo. Tal conclusão é peremptória, caso se concedam os pressupostos. Hegel lhes atribuía a evidência de um truísmo.
Com isso, ele se colocou acima de toda discussão, mas igualmente dispensou, é verdade, toda justificação. Seria ridículo desculpar o imenso dogmatismo de semelhante pressuposição.
É verdade que Hartmann coloca-se então, como desde o início ele o precisa, do ponto de vista dos “detratores de Hegel” . Basta porém replicar, como em seguida ele o faz, que a intuição de Hegel é recuperável “sob os escombros do sistema”?
Além de não ser hegeliana essa distinção entre o conteúdo e o método, a questão do dogmatismo permanece inalterada: para encontrar interesse em nosso autor, é preciso aceitar, ou não, ainda que provisoriamente, alguns gigantescos pressupostos sobre a natureza do “Espírito” ou do “Real”?
Melhor ainda, a interessante demonstração de Hartmann nesse artigo (as articulações do real seriam tanto mais esposadas pela dialética hegeliana quanto menos exigente ela fosse quanto à natureza da contradição) deixa intacta a ideia do dogmatismo hegeliano.

 

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