O Erotismo Mítico Da Ninfeta – Certa vez o escritor André Gide afirmou que não se faz boa literatura com bons sentimentos. O autor criticava o sentido engajado presente na obra de alguns escritores. No livro de Lindinês Gomes de Barros, penso, encontramos uma escritura permeada pelo mal referido por Gide –
sobretudo o mal do mito das ninfetas Anita (17 anos) e Lolita (12 anos e 7 meses). A primeira é apresentada por Mário Donato em seu romance Presença de Anita, e a segunda, por Vladimir Nabokov em seu romance Lolita.
Trilhando o caminho do excesso ou do dispêndio erótico reivindicado por Georges Bataille, essas personagens são concebidas como figuras de subjetividades que se rebelam, com seus corpos aparentemente infantis, contra uma moral normalizadora. Como as ninfas da mitologia, Anita e Lolita são pequenos seres perturbadores da ‘fábrica de ordem’ da cultura, pois como ninfetas dão continuidade, na modernidade, ao mal presente em seus corpos.
Desse mal experimentaram Humbert (35 anos) e Eduardo (40 anos). Ambos foram tomados pela dimensão trágica do amor. O primeiro sofre com a dor do desprezo, pela recusa de Lolita em amá-lo. A dor de abandono sentida por Humbert explicita o fracasso e a decadência da ideia de amor romântico e também os conflitos de um homem maduro loucamente apaixonado por uma ninfeta. “Minha alma, minha lama”, como diz Humbert. Eduardo, diferentemente de Humbert, vive uma paixão torrencial com Anita.
Mas experimenta aquilo que Bataille define como a experiência interior permeada pelo erotismo, que é a ‘aprovação da vida até na própria morte’. Uma busca intensiva de liberação do desejo. Esse é o fim do erotismo. Por isso este difere do mero ato sexual voltado para a reprodução da espécie. Na zona obscura do erotismo, entrelaçam-se desejos por orgasmos e por aniquilação, próprios da experiência do humano. Quem experimenta o erotismo toma consciência da morte, assegura Bataille. Essa consciência parece ter possuído Eduardo e Anita, levando-lhes a um pacto de morte, determinado pelo limite do sexo e pela impossibilidade da completude do amor entre eles.
Em O Erotismo Mítico Da Ninfeta, o leitor terá acesso a uma narrativa do erotismo a partir do universo ficcional dos romances; mas ela, certamente, diz também da nossa experiência interior de amantes. As singularidades selvagens das Lolitas e Anitas atordoam as consciências dos chamados homens maduros.
São perigosas e movidas pela experiência dos limites. Elas têm gosto de sangue e morte! Os homens experimentam a desordem dos sentidos já que, nos corpos belos e convulsivos dessas mulheres, encontram o mal de amor.

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