A Relíquia chega ao público em 1887, ganhando a forma de volume nesse mesmo ano. O livro foi escrito durante os quase dez anos que embalaram a gestação de Os Maias (1888) e apresentado inicialmente como concorrente ao “Prémio D. Luís da Academia Real de Ciências”. O júri, liderado por seu mais áspero rival, Pinheiro Chagas, premiou o desconhecido Henrique Lopes de Mendonça e seu O duque de Viseu, autor e obra que entrariam na história da literatura por terem “vencido” um romance de Eça de Queirós.
A Relíquia acompanha a saga de Teodorico Raposão, surpreendido com a orfandade aos 7 anos, afastado da terra natal, obrigado a ir viver junto à odiosa tia Patrocínio, a Titi, a quem é obrigado a bajular e a obedecer para que a desgraça do desamparo não o atinja em plena Lisboa. Concorrendo com o clientelismo de que viviam os padres lisboetas, Teodorico terá de aprender cedo o jogo da adulação burguesa para garantir sua sobrevivência junto a uma tia solteirona, beata e cruel, como são em geral as personagens marcadas pelo fanatismo religioso, construídas pela pena de Eça de Queirós.
A Relíquia teria tudo para ser triste, comovente e angustiado, se pudesse ser filiado à descendência dos relatos sobre órfãos e sobrevivência citadina, oriundos da ficção de Dickens. Mas Teodorico não nasceu para Oliver Twist, muito menos para Pip. Teodorico construiu-se a partir de uma dialética da malandragem que, segundo Antonio Candido, dotou seu caráter da capacidade de negociação entre o certo e o errado, entre o bem e o mal, enfim, entre o mundo da ordem e o da desordem, fazendo dele um sobrevivente em meio a uma realidade injusta a que foi forçado a pertencer. De acordo com o teórico, o malandro é aquele que é obrigado a viver em um mundo onde “as antinomias convivem em um curioso lusco-fusco, sendo a hipocrisia um dos pilares dessa civilização”.
Trazendo para o século XIX a tradição da antiga novela picaresca, A Relíquia usa e abusa do humor e da ironia para reconstruir as desventuras de Teodorico e com isso criticar o jogo de interesses que existia não só no seio da família burguesa, mas também por trás de um catolicismo idólatra e interesseiro. O atraso português e seu provincianismo são postos abaixo pela genialidade de Eça de Queirós, que usa o riso como arma vingadora diante de uma referencialidade histórica que lhe parecia injusta.

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