Do Inconveniente De Ter Nascido – Por que nascer? Por que isso é inconveniente? É inconveniente nascer ou quem nasceu se torna inconveniente? Cioran era inconveniente? Escrever é inconveniente? A morte é um dos temas mais presentes na obra de Cioran, porém neste livro é o início da vida o objeto das reflexões. Ou melhor, não é, porque morrer é o oposto de nascer. Só pode chegar à morte quem nasceu. “Gostaria de ser livre, inimaginavelmente livre. Livre como um ser abortado.”
Existe um conhecimento que retira peso e alcance ao que fazemos: para ele, tudo está desprovido de fundamento, à exceção de sei mesmo. Puro ao ponto de abominar a própria ideia de objetivo, ele traduz essa sabedoria extrema segundo a qual é indiferente praticar ou não praticar o ato, e que se faz acompanhar por uma satisfação também ela extrema: a de poder repetir, em todas as circunstâncias, que nenhum gesto que façamos justifica a nossa adesão a ele, que nada é valorizado por qualquer vestígio de substância, que a “realidade” é alçada da insensatez.
Um tal conhecimento mereceria ser chamado póstumo; ele atua como se o conhecedor estivesse e não estivesse vivo, simultaneamente ser e recordação de ter sido. “É já passado”, diz ele de tudo o que realiza, no próprio instante do ato, que deste modo fica para sempre destituído de presente.
Um dos textos-chave do trabalho de Emil Cioran, Do Inconveniente De Ter Nascido é uma coleção aforismos, escritos em seu estágio de maturidade, condensam seus pensamentos tão lacônicamente, tão eficazes e coerentes, que constituem uma descoberta decisiva para qualquer amante do paradoxo e da ironia. Esculpidos com precisão, falam do tempo, de Deus, da religião, do silêncio, da morte e do nascimento: “uma coincidência, um acidente risível”. Neles vivem uma lucidez devastadora, um humor sem limites e a lógica mais abrumadora, juntamente com a maior contradição. Oposta ao otimismo e à complacência de forma radical, Cioran não desencoraja, tem o talento para fortalecer.

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