Por Que Ler Borges é uma questão que não tem sua melhor resposta na vida do escritor argentino – pois ele não teve exatamente uma existência cheia de acontecimentos. Porque a passou, de fato, em meio à escuridão da cegueira e ao silêncio das bibliotecas. Daí a exuberância, não compensatória, mas proporcional (mesmo se inversamente), de sua obra. Dizer que ela é labiríntica é repetir um clichê.
Talvez valha a pena, então, ressaltar outros de seus múltiplos aspectos: a clareza da construção das frases, a brevidade, o humor, a mistura de erudição e fantasia, de poesia antiga e literatura policial – que criam, em suma, o nome mais fantástico da literatura hispano-americana moderna.
Em Um ensaio autobiográfico, Jorge Luis Borges relata que, por volta de 1909, quando tinha entre nove e dez anos de idade, fez uma viagem à região que fica a noroeste de Buenos Aires. Tratava-se, explica o autor, de seu primeiro contato direto com o Pampa, aquele mundo rústico e indômito, descoberto previamente na leitura dos romances gauchescos de Eduardo Gutiérrez.
Essa lembrança, um retalho da memória de sua infância, dá lugar a uma singela, porém muito significativa, reflexão do escritor: “Sempre cheguei às coisas depois de encontrá-las nos livros”. Nesse comentário, Borges revela que, na sua vida, a experiência da leitura precedeu o conhecimento do mundo, apagando os limites entre aquilo que é vivido e aquilo que é imaginado.
A frase, que ele deixa cair com simulado descuido, oferece a chave interpretativa de sua figura de escritor. Um escritor que assumiu o livro como elemento vital, deu à leitura o status de extensão da experiência e transformou a biblioteca no seu habitat. O livro, a leitura e a biblioteca fundam a imaginação poética de Borges — e parecem se desdobrar, inesgotáveis, nos seus poemas, contos e ensaios.
“Dediquei parte de minha vida às letras, e creio que uma forma de felicidade é a leitura; outra forma de felicidade — menor — é a criação poética, ou o que chamamos de criação, mistura de esquecimento e de lembrança daquilo que lemos”.

   

 

 

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