Crônica Feminina – Neste livro estão reunidas nada menos do que 110 crônicas, datadas entre o período de 5 de Janeiro de 2001 e 24 de Dezembro de 2004, que Inês Pedrosa escreve semanalmente para o jornal Expresso. Em Crônica Feminina a autora dá-nos a sua visão sobre os acontecimentos que marcaram e ainda marcam a atualidade.
Quando comecei a escrever estas crônicas pensei que iniciava uma viagem para longe do meu pequeno mundo. Pensei que se tratava, sobretudo, de apontar as antenas do interior para o exterior. Pensei que o meu trabalho consistiria, antes de mais, em refletir continuamente sobre a realidade — e transformar em palavras claras o fluxo, tantas vezes nebuloso, desse pensamento. Descobri que aquilo a que chamamos pensamento é uma amálgama de nervos e iluminações, de mágoas empoeiradas, memórias perdidas entre uma infância e outra, apontamentos de vidas e obras que guardámos para estudar mais tarde. O ritmo semanal das crônicas faz sobressair estas obsessões inconscientes, embora eu só o tenha descoberto ao revisitar os textos no seu conjunto, para escolher 110 deles para este livro.
Ao fim de uns anos, as crônicas ganham a cor sépia e reveladora dos diários, mostram muito mais do que uma perspectiva individual acerca do mundo: são um estendal de sonhos e inquietações, prazeres, ódios e amores de estimação.
Temas como o aborto, a discriminação, os abusos sobre crianças, a violência sobre as mulheres, a educação e a justiça atravessam os meus dias com uma constância recorrente. Porquê? Porque me parecem ser estas as pedras de toque da política atual. Ainda acredito que o mundo pode melhorar à vista desarmada durante o breve espaço da minha vida; se não acreditasse, não teria a perseverança de escrever todas as semanas, esteja onde e como estiver, feliz ou infeliz, varrida pela febre ou numa ebulição de festa. Dentro de todo o cronista há um otimista furioso — a própria zanga serve de testemunha a esse contrato de encantamento com o mundo.
Tento contagiar o entusiasmo que me vão causando certos filmes, livros, músicas, exposições, peças de teatro — ou, pelo menos, que as pessoas adiram à ideia da cultura como elemento amplificador da vida. Tento, através desta modalidade de escrita descendente do imprevisível deus Cronos — o deus do Tempo —, pensar livremente sobre os sinais da minha época, o que muda, o que se repete, o que resiste. Procuro fazê-lo com a maior transparência, embora sem perder a noção de que toda a transparência é ilusória, e toda a liberdade intelectual uma fatia fina, imperfeita, muitas vezes cozida com os ingredientes trocados, do complexo bolo do sentido.

   

 

 

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