Giulietta não é o roteiro de nenhum filme de Fellini. É exatamente um romance, uma brilhante demonstração de um insuspeitado Fellini escritor, que domina a técnica literária com a mesma qualidade com que marcou a história do cinema.
Numa entrevista, certa vez, Fellini disse que invejava os escritores, pois quando tinham uma ideia precisavam apenas de um lápis e uma folha de papel para executá-la, enquanto ele tinha que conseguir milhões de dólares para a produção de um filme. Em Giulietta, com um lápis e uma folha de papel, o grande cineasta (e a partir de agora também se pode dizer: o grande escritor) nos conduz ao mundo mágico de uma mulher cheia de sonhos e fantasias. Narrado na primeira pessoa, a personagem central conta suas aventuras e desventuras, seus delírios existenciais e, especialmente, eróticos. Em tudo — nas situações, no tom da narração, nas imagens — transparece de forma marcante o universo dos filmes de Federico Fellini. Os admiradores do grande cineasta não se decepcionarão: é, rigorosamente, um romance felliniano.
Algumas ideias deste romance, ele as utilizou no filme Julieta dos espíritos (1965). Vagarosamente elaborado, Giulietta, o livro — inédito — sai agora simultaneamente no Brasil, Alemanha e Itália. A tradução é do escritor José Antonio Pinheiro Machado, cujo trabalho como tradutor foi reconhecido a partir da impecável tradução de O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa.
Poucos diretores de cinema conseguiram marcar tão claramente seu estilo, a ponto de virar adjetivo. Dizer que tal filme ou tal personagem é “felliniano” significa identificá-lo com a estética ao mesmo tempo barroca e popular de seus trabalhos das décadas de 60 e 70, em que o exagero e a predileção pelo inusitado conduzem, na verdade, a uma reflexão séria – e muitas vezes cruel – sobre o cotidiano de seres humanos frágeis e anônimos. Em seus melhores filmes, como “Os boas vidas”, “Julieta dos espíritos”, “A doce vida”, “Amarcord” e “La nave va”, Fellini demonstra que o cinema pode ser absolutamente autoral sem perder sua universalidade.

 

 

 

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