Graciliano Ramos – Linhas Tortas

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Linhas Tortas – “Deve-se escrever da mesma maneira com as lavanderias lá de Alagoas fazem em seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma duas vezes.
Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como falso; a palavra foi feita para dizer.”
Linhas Tortas, publicado pela primeira vez em 1962, traz crônicas de Graciliano Ramos, grande parte delas foi destinada a dois jornais: Paraíba do Sul, periódico que circulava numa cidade de mesmo nome, no estado do Rio de Janeiro e O Índio , de sua cidade natal Palmeira dos Índios, no estado de Alagoas.
As crônicas que compõem Linhas Tortas focalizam temas diversos como a política, a cultura brasileira e a literatura nacional e nos mostram um Graciliano bastante à vontade, irônico e combativo. Como a grande maioria dos textos enfatiza nossos dilemas culturais e literários, selecionei a queles nos quais são exibidas as opiniões mais contundentes da maneira mais direta, o que é possibilitado pelo gênero “crônica” e menos comum no âmbito romanesco.
A estrutura social brasileira e a formação cultural nacional são assuntos centrais da produção romanesca de Graciliano Ramos, seja num romance considerado mais simples como Caetés, seja em suas grandes obras, como São Bernardo, Vidas Secas e Angústia.
As crônicas de Linhas Tortas seguem uma tendência parecida. Embora em alguns momentos o autor se dedique a escrever sobre algum livro recém-publicado ou contendas específicas do contexto local dos periódicos, o tema da cultura brasileira sempre é tocado. De forma geral, não parece exagero dizer que todas as crônicas abordam a “experiência do caráter postiço, inautêntico, imitado, da vida cultural que levamos”, dado “formador” de nosso pensamento social desde quando o Brasil se tornou um país independente.
Entretanto, apesar da analogia com a matéria de seus romances, as crônicas trazem um traço estilístico diverso. A produção de Graciliano enquanto cronista não demonstra toda aquela mediação formal e feição dramática observáveis em sua produção romanesca, mas sim se mostra bastante próxima de um traço estilístico próprio do ensaio, principalmente se pensarmos no caráter da produção ensaística da década de 30, através do trabalho de intelectuais do porte de Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre: sensibilidade literária e empenho para apreender a fisionomia de nossa dependência

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