Nossas atuais esquerdas têm muito a ganhar se interpelam a trajetória contemporânea do Partido Comunista Brasileiro (PCB). O caminho elaborativo seguido por esse partido pode lhes passar confiança para não caírem na armadilha doutrinária deixada pela extinção da URSS. Por suas dificuldades em compreender o fim do comunismo, não poucas áreas de esquerda, em vários lugares, inclusive no Brasil, foram levadas à contestação da nova época histórica e ao isolamento paralisante.
A razão de ser das nossas esquerdas está em ativarem um movimento por um novo reformismo a se construir em parceria com outros grupos e partidos, hoje existentes no país. Um reformismo – comprometido com a democracia política e o desenvolvimento com oportunidades para todos – que responda ao sentido dos tempos, supere os efeitos negativos da globalização e ponha suas muitas potencialidades a serviço da vida nacional.
As correntes ligadas ao campo do marxismo político brasileiro não têm porque aceitar “marco zero” de ideias de esquerda nem aderir ao pragmatismo perigoso a que leva quem não se vale dos melhores estilos de pensar e agir deste país. No Brasil, há uma grande tradição de pensamento social e um instigante modo de ver nossas coisas a duras penas acrisolado na esquerda pecebista.
A Importância Da Tradição Pecebista tem por propósito realçar esse último tipo de patrimônio. Esperamos que estimule o leitor a avaliar o PCB não apenas por suas atuações na história, como imagem do passado, mas sobremaneira como um partido que nos traz, até os dias atuais, pontos de referência de uma cultura política de esquerda bastante útil.
Os textos A “imagem do Brasil” da Declaração de Março de 1958 e A defesa da política nos anos de chumbo, da primeira seção, sugerem duas proposições pecebistas interligadas: 1) a da centralidade da política, conquanto apenas a ação política, sob o Estado democrático de Direito, reúne energias reformistas e condições favoráveis à melhoria da sociedade, de forma sustentável; e 2) a tese de que o caminho democrático por meio da política possibilita a reestruturação progressiva da nossa economia de mercado, lembrando a propósito o que disse Habermas por ocasião da Queda do Muro de Berlim (“A economia não é um templo, mas um campo de testes”). Aquela segunda tese foi apresentada por uma vertente pecebista bem antiga, descrita na recensão A presença das teses caiopradianas nos textos de Elias Chaves Neto, apensada na seção inicial do volume. Está em Caio Prado Jr. – no cânone “produtivista” que o historiador constrói com sua imagem de Brasil – a melhor raiz das proposições programáticas do seu PCB.
O texto A importância da tradição pecebista, da segunda parte deste livro, refere-se aos desafios que os acontecimentos da época mais recente puseram às esquerdas. Em meados dos anos 1970, aos comunistas do PCB lhes foi exigido intensificar a renovação iniciada com a Declaração de Março de 1958. Este tipo de requerimento continua a inquirir o Partido Popular Socialista (PPS) e ainda as demais esquerdas, particularmente o PT.

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