Movimentos contra vacinação estão em alta. Com texto esclarecedor, sem deixar de ser pessoal, Imunidade traz o debate sobre imunização para um novo patamar. Eula Biss quase morreu no parto do seu primeiro filho. Confrontada com a fragilidade da vida, ela tornou-se obcecada com assuntos relacionados à saúde, em especial aqueles envolvendo o recém-nascido. Imunidade é o resultado dessa pesquisa, um livro pessoal e esclarecedor. Mistura de ensaio pessoal, história cultural e investigação científica, Imunidade – ao estilo de Susan Sontag e Andrew Solomon – une entretenimento, esclarecimento e qualidade literária.

A primeira história que ouvi sobre imunidade foi contada por meu pai, que é médico, quando eu era muito jovem. Tratava-se do mito de Aquiles, cuja mãe tentou torná-lo imortal. Numa das versões, ela queimou sua mortalidade com fogo e Aquiles ficou fechado para lesões em todo o corpo, exceto no calcanhar, onde uma flecha envenenada acabaria por feri-lo, matando-o. Outro relato conta que, quando recém-nascido, Aquiles foi imerso no Estige, o rio que separa o mundo dos vivos do mundo subterrâneo dos mortos. Sua mãe segurou o bebê pelo calcanhar para mergulhá-lo na água, deixando-o com uma vulnerabilidade fatal.
Quando pintou a vida de Aquiles, Rubens começou pelo rio Estige. Morcegos voam no céu dessa tela e mortos passam por uma balsa à distância. Aquiles pende da mão de sua mãe por uma perna roliça, com a cabeça e os ombros inteiramente debaixo d’água. Obviamente, não estamos diante de um banho comum. O cão de três cabeças que guarda o inferno está enrodilhado na base da pintura, onde o corpo do bebê encontra o rio, como se a criança estivesse sendo mergulhada no animal. Conferir imunidade, sugere a pintura, é uma tarefa perigosa.
Decidida a preparar seus filhos para os perigos da vida, minha mãe lia os contos de fadas dos Irmãos Grimm em voz alta para nós todas as noites, antes de dormir. Não me lembro da brutalidade pela qual essas histórias são tão famosas, mas me lembro de sua magia – as peras douradas crescendo no jardim do castelo, o menino do tamanho de um polegar, os doze irmãos que se tornaram doze cisnes. Não escapou à minha atenção de criança, no entanto, que nesses contos os pais têm o hábito exasperador de serem levados ingenuamente a fazer apostas ruins com as vidas de seus filhos.

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