“Dez horas da noite, na rua deserta, a preta mercando parece um lamento […] Na sua gamela tem molho cheiro, pimenta da costa, tem acarajé…” O trecho da música A preta do acarajé, de Dorival Caymmi, sintetiza
bem a rotina das antigas vendedoras de acarajé da cidade do Salvador. Antes delas, durante o século XIX, o trabalho de comercialização de alimentos e outros
produtos pelas mulheres negras nas ruas da Bahia favoreceu a construção de princípios de identificação daquelas mulheres, o que representou uma forma de sobrevivência, preservação (e reinvenção) de tradições culturais, além de uma possibilidade de ascensão social.
No período da escravidão, a principal atividade desenvolvida pelas negras era o trabalho doméstico. Elas precisavam ter habilidades para lavar, engomar, limpar e, principalmente, cozinhar. Algumas eram livres e vendiam o seu trabalho de doméstica, mas a maioria era escrava. Além da ocupação nas casas dos senhores, muitas realizavam serviços para terceiros comercializavam produtos nas ruas da cidade. Diferentemente das crioulas (filhas de escravos nascidas no Brasil), que quase não desempenhavam a função de ganhadeira e dedicavam-se prioritariamente às atividades domésticas, a maioria das mulheres africanas trabalhava na rua.
Uma dieta marcadamente influenciada pelo azeite-de-dendê e demais produtos de origem africana ganhou dimensão pública e foi introduzida na alimentação brasileira através dessas mulheres e das atividades que realizavam na condição de escravas-de-ganho, sendo o lucro auferido dividido em proporções negociadas com seus senhores. Naquele período, mulheres de todas as classes sociais só exerciam funções domésticas, visto que sair à rua desacompanhada era considerado ultrajante para as senhoras “de respeito”.
Ao deixarem a cozinha da Casa Grande, as escravas inauguraram, nos centros urbanos, a prática de comercialização de quitutes em via pública. Desde o período colonial, a venda no tabuleiro também servia para financiar as festas e obrigações religiosas nos terreiros, e/ou ajudar na criação de irmandades religiosas católicas. De acordo com Renato da Silveira, as irmandades de negros no Brasil colonial eram frequentemente dedicadas a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santo Antônio de Catageró, Santa Ifigênia. Sendo que, “na sociedade colonial portuguesa as irmandades destinadas aos negros eram particularmente vigiadas: como todas as demais, eram supervisionadas e inspecionadas pelas autoridades civis e eclesiásticas, porém ‘com maior zelo”.

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