Ninguém duvida de que o trabalho de crítica dos preconceitos e das ideologias é algo necessário para quem quer que viva desejando a emancipação humana e defenda a liberdade nas democracias. Contudo, alguém poderia perguntar: qual a atualidade de um trabalho de crítica das manifestações ideológicas do autoritarismo brasileiro? Afinal, não vivemos numa democracia, a ditadura já não acabou e, com ela, o autoritarismo brasileiro? Ou será que o autoritarismo brasileiro se infiltrou na democracia e ainda nos assedia com manifestações mais sofisticadas? Afinal, o que é o autoritarismo brasileiro?
Os leitores e as leitoras encontrarão nestes ensaios de Marilena Chaui motivações para investigar as origens do autoritarismo brasileiro e criticar as suas manifestações atuais. Este volume reúne ensaios publicados em livros, revistas e jornais nas décadas de 1970, 1980, 1990 e 2000. A reunião dos textos publicados em tempos e meios diversos num só volume permite a leitoras e leitores refletir, tendo como pano de fundo o contexto das décadas aludidas, sobre a formação e o sentido de uma monumental obra de combate ao autoritarismo brasileiro. Os leitores e leitoras podem, além disso, inspirar-se nesta reunião para levar o esforço adiante e elaborar novas formas de afirmar a liberdade e combater o autoritarismo no presente e no futuro.
“Apontamentos para uma crítica da Ação Integralista Brasileira”, publicado em 1978, foi o primeiro grande ensaio de crítica da ideologia. A crítica da Ação Integralista Brasileira permitiu que Marilena Chaui desvendasse como se formou, na década de 1930, momento de posição do capital produtivo na economia brasileira, a ideologia dos integralistas que buscavam, no Brasil, instaurar um Estado totalitário que se alinhasse com o Estado da Itália sob Mussolini e o Estado da Alemanha sob Hitler. A ideologia integralista foi dirigida às novas classes médias urbanas e procurou aliciar, sobretudo, os funcionários públicos para que contivessem os levantes operários e anarquistas iniciados na década de 1920.
Durante a década de 1980, sob o impacto das imposições neoliberais, Marilena Chaui expande a crítica do imaginário das classes médias urbanas que apoiaram os regimes autoritários nas décadas de 1930 e 1970. Com efeito, ela inicia a elaboração da crítica da ideologia da competência, que se consolida, a partir da década de 1990, como crítica da ideologia dos tecnocratas que aparelhavam o Estado e, exercendo funções na administração pública, sob o comando do grande capital financeiro, punham em marcha o “choque de gestão” que conduziria à chamada “modernização do Estado”.

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