É numa terra abandonada que nos propomos fazer a nossa lavoura. O estudo que agora se introduz desenvolverá uma análise semiótica do corpo e das suas produções de sentido. Fazer semiótica, atualmente, corresponde a um exercício condenado a uma certa solidão, mas também marcado por um diálogo silencioso que resulta do partilhar de uma riqueza deixada por duas heranças. Por um lado, a herança das ciências da linguagem – de Saussure, Hjelmslev, Benveniste e Jakobson – a partir das quais o projecto semiótico tem a sua origem contemporânea; por outro lado, a herança das ciências sociais ou, expressando-o melhor, da análise das linguagens e das coisas a partir do “social” (análise que tem em Foucault uma presença tutelar). Mesmo introduzidas de modo tão sucinto, estas duas heranças estabelecem para o semiótico as coordenadas necessárias à definição do projeto sociossemiótico: a montante, o reconhecimento da importância das fontes linguísticas e dos métodos estruturais (de novo Saussure mas também Troubetskoy, Jakobson, Martinet); a jusante, a intenção de operar as ferramentas semióticas dinamicamente, visando uma melhor compreensão da dimensão social dos fatos de significação (Greimas, Landowski mas também Foucault, M.de Certeau).
Sabemos que no interior da prática científica existe um discurso, que sempre temos presente quando iniciamos uma determinada investigação, que afirma que “nem tudo é verdadeiro, mas que em qualquer lugar e em qualquer momento existe uma verdade que aguarda ser vista e ser dita, uma verdade talvez adormecida, que espera o nosso olhar para despertar, aguarda a nossa mão para se entregar”. Ao investigador cabe então encontrar a boa perspectiva, o ângulo correto, selecionar os instrumentos necessários ao evidenciar da verdade.
Se este discurso alicerça grande parte da prática científica ele parece emudecer no interior da semiótica. O semiótico admite, antes, que a verdade, como o relâmpago, não nos espera onde temos a paciência de embosca-la e a habilidade de surpreende-la, mas que tem instantes propícios, lugares privilegiados, não tanto para sair da sombra, mas fundamentalmente para se produzir.

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