Esta obra procura empreender uma análise objetiva das cartas de chamada enquanto instrumentos que permitem aferir a dimensão familiar da emigração, isto é, compreender a problemática interna gerada no seio da família a partir da deslocação para o Brasil de um dos seus membros.
Na perspetiva de uma teoria da comunicação, determina-se a função da carta como privilegiado veículo para as necessárias mensagens enquanto se procura compreender a sua estrutura interna e a particular natureza dos seus conteúdos onde se define o grau de cultura de emissores e recetores e onde se revela a textura desse espaço em que se movimenta a família e onde interage com a comunidade.
Enquanto discurso sobre a viagem, analisa-se esse lado mais pragmático das cartas que se constituem como estímulo para destinatários indecisos e que tentam estabelecer o que vai da forma de obter créditos à negociação dos “papéis”, do conteúdo da mala às formalidades do desembarque.

É reconhecido o impacto que a emigração para o Brasil teve na Beira Alta a partir dos finais do séc. XIX definindo um ciclo de forte intensidade que vai encerrar-se apenas nos finais da década de cinquenta do séc. XX.
A sensibilização para esta problemática da emigração para o Brasil, no universo físico e cultural do Concelho de Sernancelhe e alguns estudos académicos anteriormente feitos no âmbito da Histórica Ibérico-Americana tornaram oportuno ampliar a investigação no referido Concelho desenvolvendo tal assunto e referenciando-o com o tema assinalado.
Havia ainda a intenção de identificar a intensidade dessa onda migratória que correra nos dois sentidos, de compreender as razões que motivaram a ida de tantos e o regresso de alguns, de conhecer melhor quem eram os actores desta autêntica epopeia, de encontrar finalmente um sentido para a envolvência de um imaginário moldado pela ideia de que o Brasil era uma espécie de Terra Prometida, a terra da “Árvore das Patacas” da linguagem mais comum, de onde chegavam cartas e dinheiro, baús que adivinhavam riqueza, fotografias de gente que parecia feliz.

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