A história da medicina é uma longa substituição da ignorância pela falácia.
Esse é o diagnóstico de Richard Gordon neste estudo divertido e informativo. Para deleite dos hipocondríacos, ele visita pacientes difíceis e diferentes, como a Rainha Vitória (que arrotava incontrolavelmente), Hitler (que abaixava as calças para injeções estimulantes cinco vezes por dia) e o pioneiro do sexo seguro, James Boswell (que usava camisinhas feitas com tripa de carneiro amarradas com fitas nas cores nacionais).
Com um ouvido apurado para a frase irônica e um completo domínio da arte de atender pacientes, Richard Gordon nunca fez a medicina parecer tão desajeitada e tão engraçada.
A história da medicina não é o testamento de idealistas à procura da saúde e da vida, assim como a história do homem não é mais gloriosa do que uma lista de irracionalidade brutal e egoísta com lampejos espasmódicos de sanidade.
A história da medicina é, em grande parte, a substituição da ignorância por mentiras. Esse vagar errante por becos sem saída pode ser uma progressão útil, quando os mais inteligentes e impacientes caminhantes encontram um caminho melhor. “Muitas descobertas notáveis foram feitas por homens que, seguindo os passos da natureza com os próprios olhos, acompanharam-na por caminhos tortuosos, mas quase sempre seguros, até alcançá-la na sua cidadela da verdade”, disse o homem que descobriu a circulação do sangue.
Em cada geração, desde 1600, esses individualistas legaram à humanidade algum avanço biológico, não relacionado com o progresso árido dos benfeitores convencionais. O fato de as suas descobertas terem sido, de um modo geral, ameaçadas por perigos insuspeitados, provocando doenças inesperadas e morte, só contribui para dar mais interesse à história.
Os desbravadores das grandes extensões deste vale de lágrimas formam um grupo especial: todos inteligentes, alguns astutos, os de mais sorte abençoados com inspiração ou intuição, muitos deles simplesmente classificadores obsessivos dos homens e dos micróbios, ou simplesmente dotados de grande destreza manual. Suas cabeças acadêmicas zumbiam com abelhas que, às vezes, adoçavam com mel o pão da aflição. Eles se confundiam com os ilusionistas. A medicina sempre se revestiu do manto cintilante das realizações, enquanto continuava miseravelmente despida de descobertas importantes. Estas são ao todo uma dúzia, relacionadas no fim do livro, para que os leitores inteligentes possam testar a própria percepção.

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