Como a ciência do cérebro é um campo em evolução acelerada, é raro darmos alguns passos para trás a fim de ver a extensão do terreno, procurar entender o que nossos estudos significam para nossas vidas, discutir de forma simples e direta o que representa ser uma criatura biológica.
Este livro se propõe a fazer isto.
A ciência do cérebro é importante. O estranho tecido computacional em nosso crânio é o mecanismo perceptivo com o qual percorremos o mundo, a matéria da qual surgem as decisões, o material de que é forjada a imaginação.
Nossos sonhos e nossa vida em estado desperto emergem de seus bilhões de células velozes. Uma compreensão melhor do cérebro esclarece o que consideramos real em nossas relações pessoais e o que sabemos ser necessário na política social: como lutamos, por que amamos, o que aceitamos como verdadeiro, como devemos educar, como podemos elaborar melhores políticas sociais e como projetar nossos corpos pelos séculos que estão por vir. Nos circuitos microscopicamente pequenos do cérebro, estão gravados a história e o futuro de nossa espécie.
Em vista do caráter central do cérebro na vida, eu costumava me perguntar por que a sociedade trata tão pouco sobre o tema, preferindo, em vez disso, falar sobre fofocas de celebridades e reality shows.
Mas agora creio que esta falta de atenção ao cérebro não pode ser considerada um defeito, mas uma pista: estamos tão aprisionados à realidade, que é muito complicado perceber que estamos presos a qualquer coisa. À primeira vista, parece que não há nada do que falar. É claro que as cores existem no mundo. É claro que minha memória parece uma câmera de vídeo. É claro que conheço os verdadeiros motivos para acreditar no que acredito.
As páginas deste livro colocarão todas as nossas suposições sob escrutínio. Ao escrevê-lo, eu quis me afastar do modelo didático para atingir um nível esclarecedor e mais profundo de investigação: como tomamos decisões, como percebemos a realidade, quem somos, como conduzimos nossas vidas, por que precisamos dos outros e para onde vamos como uma espécie que mal começou a segurar as próprias rédeas.
Este projeto tenta estabelecer uma ligação entre a literatura acadêmica e nossas vidas enquanto donos de um cérebro. Minha abordagem neste livro diverge dos artigos acadêmicos que escrevo e até de outros títulos meus sobre neurociência. Este projeto pretende atingir um público diferente. Ele não pressupõe nenhum conhecimento especializado, apenas curiosidade e apetite por explorar a si mesmo.
Assim, aperte o cinto para uma viagem com breves escalas pelo nosso cosmo interior. No infinitamente denso emaranhado de bilhões de células encefálicas e seus trilhões de conexões, espero que você consiga piscar e perceber que viu algo inesperado ali: você mesmo.

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