O pensamento de Umberto Eco caracteriza bastante bem o momento de desprovincianização da cultura italiana, e se tem configurado nestes últimos anos como a expressão do interlocutor talvez mais autorizado – sem dúvida aquele de maior capacidade formulativa e maior ressonância – no sentido da retomada de um discurso cultural interrompido por mais de vinte anos de ditadura.
Com exceção do caso especialíssimo de Benedetto Croce, não se teve na Itália, por um tão longo período, nenhum traço da batalha de ideias que animava proficuamente o debate intelectual de muitos outros países.
Além de bloquear o desenvolvimento da cultura, o fascismo conseguiu esterilizar, por absorção, o que de mais vital se produzira nos anos que precederam imediatamente ao seu surgimento. Assistiu-se assim, entre outras coisas, à redução a termos grotescamente nacionalistas de um movimento que se caracterizara, desde suas primeiras manifestações, por um insopitável impulso supranacional e cosmopolita: o futurismo, cuja violenta carga destrutiva foi encapsulada e transformada em instrumento exatamente por aquelas forças contra as quais se tinha levantado.
Com o que se verificou o absurdo do abandono ou deformação de todas as inúmeras instigações de que fora rico o futurismo, e isso justamente no país que as vira eclodir. Entrementes, fora da Itália – e o Brasil é um dos mais notáveis exemplos desse processo – tais instigações eram recolhidas e frutificavam, influenciando profundamente inteiras culturas nacionais através de muitos contributos de alto nível – aqui, nesta distante América, num Brasil asfixiado pelos Machado Penumbra, explodia a Semana de Arte Moderna de 1922, com o seu mentor poético, Oswald de Andrade, o antropófago.
Hoje, com a nova geração de intelectuais à qual pertence Umberto Eco, a Itália reata finalmente um diálogo de nível europeu e internacional, e vai recuperando com rapidez o tempo perdido, trabalhando em diversas direções.
Uma das constantes dessa atividade é representada pela corajosa retomada de temas aparentemente exauridos, temas que são repropostos a uma leitura nova, depois de terem sido objeto de uma recuperação crítica – uma quase restituição à sua perdida virgindade.
É nesse sentido que Obra Aberta repropõe os conceitos de comunicação, informação, abertura, alienação e outros, e é a partir de tal empresa de recuperação que se iniciam e fundam as contribuições mais originais de Umberto Eco para a formulação de uma poética sobre a abertura da obra.

  

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