Embora a produção infanto-juvenil de Monteiro Lobato (1882-1948) venha sendo celebrada pelo público e pela crítica especializada desde seu lançamento entre as décadas de 20 e 40 do século passado, alguns títulos, considerados individualmente, não receberam toda a atenção que mereceriam. É o caso de A chave do tamanho, título lançado em 1942, obra de maturidade do autor e um dos últimos volumes da saga do Picapau Amarelo.
Essa narrativa, que em sua primeira edição recebeu o subtítulo “A maior reinação do mundo”, foi lembrada por muitos daqueles que se propuseram comentar ou estudar esse título lobatiano. No entanto, de um modo geral, as considerações sobre a obra se concentraram na discussão de questões ideológicas, que a lançaram num clima de acirrada polêmica, sem que houvesse por contrapartida um estudo mais vertical da narrativa; ou seja, sem que fosse, de fato, analisada sua composição em diferentes níveis e nas relações que estabelecem entre si.
Escrita e publicada em pleno desenrolar da Segunda Guerra Mundial, A chave do tamanho foi objeto, sobretudo, de abordagens temáticas, muitas vezes marcadas pela dicotomização política típica do pós-guerra ou por discussões que puseram na berlinda a postura transgressora e relativista da obra na formação das crianças e jovens, em especial pelo fato de tratar de questões darwinianas clássicas, como evolução e adaptação. A celeuma criada pelo Padre Sales Brasil cerca de uma década após a morte de Lobato, com a publicação do livro A literatura infantil de Monteiro Lobato ou Comunismo para crianças (1959), tornou-se notória e exemplar – no mau sentido – do modo ligeiro com que muitas vezes foi lido esse texto tão original de Lobato.
O trabalho que ora nos apresenta Thiago Alves Valente, e que corresponde em linhas gerais à sua dissertação de mestrado, realizada e defendida junto ao Curso de Pós-graduação em Letras da Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da Unesp, campus de Assis, vem cumprir um papel fundamental no sentido de situar em um novo patamar a produção crítica sobre a obra. O pesquisador buscou superar as abordagens que deixaram de lado ou em uma posição muito secundária a dimensão estética da obra do escritor, para, de modo decisivo, trazer esse questionamento ao primeiro plano, direcionando os olhos do leitor contemporâneo para aspectos até então pouco explorados no exame da obra.

Deixe uma resposta