Thales Guaracy – A Criação Do Brasil 1600-1700
No final do século XVI, Portugal terminou a consolidação da colônia na América, muito graças à ação do seu terceiro governador-geral, Mem de Sá.
Com o apoio da Coroa portuguesa e sob influência dos jesuítas, que coordenaram as ações das forças enviadas pelos portugueses com tropas paulistas e de Salvador, a então capital colonial, Mem de Sá havia dizimado os índios tupinambás da costa, na administração que só acabou com sua própria morte, em 2 de março de 1572.
Como uma versão tropical da Pax romana, se estabeleceu a Pax portuguesa. Pelo genocídio dos tamoios – tribos confederadas que montaram a resistência organizada, cujo último reduto foi a baía de Guanabara –, o Brasil foi pacificado.
Pacificado?
Como relatado em A Conquista Do Brasil (1500-1600), na década de 1570 a colônia portuguesa deixada como herança pelo governo Mem de Sá ainda se restringia a uma dezena de cidades no litoral, distribuídas em oito capitanias. Tinha pouco mais de 17 mil habitantes brancos europeus, de acordo com o empresário, economista e historiador Roberto Simonsen.
Segundo o geólogo e político Pandiá Calógeras, em seu Formação histórica do Brasil, havia em 1583 aproximadamente 18 mil índios pacificados e 14 mil escravos negros, sobretudo nas capitanias da Bahia e de Pernambuco.
Com eles, a população colonizadora alcançava cerca de 50 mil pessoas. A economia vivia em função de 60 engenhos de açúcar, com produção estimada de 3 mil arrobas anuais, além das culturas de cana e algodão e da extração de pau-brasil.
Moradores de vilas esparsas no extenso litoral brasileiro e suas cercanias, os colonos exerciam pouca ou nenhuma influência no interior do continente. Para lá, dentro e além da área que pertencia a Portugal pelo Tratado de Tordesilhas, firmado com a Espanha ainda em 1494, o território era povoado exclusivamente por índios belicosos que jamais se submeteram aos portugueses, ou que abandonavam as escolas e aldeias sob influência dos jesuítas no litoral.
A maior parte dos índios que conheceu a escravização ou o extermínio das tribos litorâneas nas “guerras justas” – figura jurídica que ainda permitia cativá-los legalmente – procurou se afastar o máximo possível dos “peros” – como eram conhecidos os colonizadores portugueses, numa generalização do seu nome de batismo mais comum.

 

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