Jorge M. De Almeida & Álvaro L. M. Valls – Kierkegaard

Søren Kierkegaard nasceu em 5 de maio de 1813, em Copenhague, onde faleceu em 11 de novembro de 1855. A brevidade de sua vida contrasta com a qualidade e a extensão de sua produção, ainda não classificada nos círculos acadêmicos. Se não é filósofo, nem teólogo, nem psicólogo, nem literato, nem místico, nem pedagogo, como é que sua influência está tão presente em Jaspers, Heidegger, Sartre, Ricoeur, Benjamin, Kafka, Buber, Chestov, Lévinas, Derrida, Rosenzweig, Jankélévitch, Bloch, Merleau-Ponty, Arendt, Deleuze, Canetti, Barth, Lacan, Bataille, Tillich, Adorno?
Kierkegaard é um enigma: “Por toda a vida me encontrarei sempre na contradição, porque a vida mesma é contradição.” Nos Diários, na produção pseudonímica ou na assinada por ele, constata-se uma estratégia férrea de dissimular-se num labirinto para servir como espelho, em que o leitor pode ver o próprio rosto. O enigma é proposital, pois ele tinha consciência da força e da originalidade dos seus escritos, e não queria ser transformado num ilustre personagem acadêmico das faculdades de teologia, filosofia ou direito: “Um dia não somente os meus escritos, mas certamente a minha vida e todo o complicado segredo do maquinário serão minuciosamente estudados.” De fato, são estudados e esmiuçados, e multiplicam-se as sociedades de estudos kierkegaardianos mundo afora. Formulam-se hipóteses sobre seu universo particular, subjetivo, afetivo, sexual. Dissecam-no como a um cadáver. Viveu dissimulando para manter a sua própria individualidade. Hoje é traduzido e ensinado como um modelo. Tradutores, professores e comentadores o convertem, contra a vontade, num pastor, mestre, literato ou psicólogo.