Este livro é, essencialmente, o diálogo de um dos maiores intelectuais brasileiros com a política brasileira. O protagonista é Raymundo Faoro (1925-2003), jurista e historiador, autor do livro Os donos do poder, uma referência primordial para a compreensão da nossa formação, da nossa herança cultural.
Aqui estão reunidas entrevistas iniciadas logo após ele ter deixado a presidência do Conselho Nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), exercida no biênio 1977-1978, e encerradas um pouco depois de ter assumido a cadeira número 6 da Academia Brasileira de Letras, em 2002.
Raymundo Faoro fez da OAB um reduto de inteligência e um foco de resistência pacífica dentro das fronteiras do regime militar. Foi um adversário implacável do arbítrio a partir de um ponto de apoio fundamental legal: o restabelecimento do habeas corpus. Partiu de lá a primeira denúncia, assumida por uma instituição, sobre casos de tortura praticados pelo regime militar. Lá nasceram os argumentos que forçaram o governo a recuar da proposta de uma anistia restrita, em forma da revisão processo por processo dos perseguidos políticos. De lá surgiu a proposta de convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte que ocorreu e resultou na Constituição de 1988.
Aqui estão transcritas e editadas as quinze conversas gravadas em que são tratados os episódios capitais do período de 1979 a 2002. Um pouco mais de duas décadas. Um ciclo que começa no ocaso da ditadura militar e acaba com o resgate das liberdades políticas. Uma negociação política, entretanto, realizada segundo os princípios daquelas transações que resultam sempre na frustração dos movimentos sociais e na consequente traição da democracia. Uma transição feita sob as ordens do ditador: lenta, gradual e segura. Um biombo transparente do velho lema conciliador: mudar para proteger. Ao evitar a ruptura com as regras que consolidavam o autoritarismo fardado migrou-se para um regime de autoritarismo civil que traiu o estabelecimento de uma democracia plena. O entulho foi escondido sob o tapete. Consequências: a anistia para os torturados implicou absolvição dos torturadores; a intensa mobilização popular pelo retorno das eleições presidenciais diretas – a campanha das “Diretas Já” – resultou na eleição indireta e desdobrou-se, a seguir, na vitória de um rebento do regime militar.

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