O saci fazia parte da imaginação de Lobato desde criança, por meio de histórias contadas pelas negras da fazenda de seu pai, no interior de São Paulo. Tanto foi assim, que seu primeiro livro, O Sacy-Perêrê resultado de um inquérito, publicado em 1918, foi dedicado “à memória da saudosa tia Esmeria, e de quanta preta velha nos pôs, em criança, de cabelos arrepiados com histórias de cucas, sacys e lobisomens…” Monteiro Lobato não assinou a obra com seu nome, atribuindo a autoria a “Um Demonólogo Amador”. Ele queria deixar claro que não criara os casos ali narrados. A história desse livro, entretanto, começara dois anos antes.
Desde 1916, Lobato estava empenhado em popularizar o duende brasileiro — o “buliçoso negrinho de uma perna só”. Naquele início de século, parte da elite urbana brasileira passava ao largo da nossa cultura popular, com olhos voltados para tudo o que era estrangeiro nos campos da moda, das artes, da literatura, das lendas.
“Pelos canteiros de grama inglesa há figurinhas de anões germânicos, gnomos do Reno, a sobraçarem garrafas de beer. Por que tais niebelungices, mudas à nossa alma, e não sacys-serêrêes, caaporas, mães d’agua, e mais duendes criados pela imaginação popular?”, indagava Lobato em artigo escrito para a Revista do Brasil, de novembro de 1916, chamando a atenção para alguns dos hábitos importados.
Em 28 de janeiro de 1917, o “Estadinho” — a edição vespertina do jornal O Estado de S.Paulo —, trouxe uma novidade: o colaborador Monteiro Lobato (que assinava apenas “L.”) lançava uma pesquisa sobre o demoniozinho brasileiro cujas traquinices eram conhecidas há gerações em todos os rincões do Brasil. Ele queria saber dos leitores quais os casos mais remotos envolvendo o saci de que se lembravam — histórias contadas pelos avós, pelos escravos, pelos antigos… Pois, como dizia Lobato, “em inquérito, todos falam, o estilo varia, o pitoresco aumenta”.
O inquérito sobre o Sacy-Perêrê apareceu no momento em que os jornais estavam ocupados com notícias da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Mesmo assim, foi um sucesso imediato entre os leitores. Segundo Lobato, o saci vinha “com suas diabruras aliviar-nos do pesadelo” da Guerra. “Bendito sejas! Estás perdoado de muitas travessuras por haveres interrompido, por um momento, em nossa imaginação, a hedionda sessão permanente de horror…”.

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