Maria Lucia Da Silveira – O Nervo Cala, O Nervo Fala: A Linguagem Da Doença
Resulta de uma pesquisa sobre o sofrimento de nervos entre mulheres na comunidade do Campeche, em Florianópolis, Santa Catarina.
Entremeando relatos das pacientes a observações pessoais e teóricas, O Nervo Cala, O Nervo Fala traça um retrato do atendimento médico no local, bem como das relações interpessoais, utilizando, como cenário, o problema dos nervos.
Antropologia e medicina se unem, oferecendo uma visão mais completa de uma queixa cada vez mais freqüente nos consultórios em todo o mundo. Mais do que uma pesquisa, O Nervo Cala, O Nervo Fala é um relato permeado de humanidade.
Fica para o leitor a tarefa, sugerida pela autora, de refletir sobre a relação entre gênero, saúde, violência e nervos.
Desde que Hipócrates, contrariando suas outras proposições racionalizadoras para o pensamento médico, incorporou em seus estudos as voluntariosas manifestações da alma animal, a medicina ocidental, dita científica, se viu às voltas com fenômenos cuja natureza rebelde não se deixou prender pelos seus cânones ou dogmas.
O desafio contínuo de um deles, o que hoje ainda conhecemos por nervos, nervoso, ou, como muitos dizem na Ilha de Santa Catarina, nelvos, é ilustrado, historicamente, pelas denominações (que indicam esquemas conceituais correlatos) recebidas em diferentes períodos: sufocação, vapores, tarantismo, histeria e, no costume atual, estresse.
Nerves para os de língua inglês, nervios entre os hispânicos, nerva entre gregos são algumas das denominações sob as quais é encontrado o fenômeno, que tem sido observado em vários contextos socioculturais no mundo.
As especificidades de sua apresentação e de seus significados são moduladas pela cultura, o que lhes confere o caráter de sintomas interpretados culturalmente, tais como os mencionados por Low, também tratados por Davis & Guarnaccia.
Nervos é um conjunto variado e instável de sintomas psicológicos e/ou somáticos, mediadores entre o sujeito sofredor e o seu meio, constituindo uma das expressões de distresse ou estresse social.
Essa sintomatologia tosca, polimorfa e imprevisível pode comprometer quase todo O corpo e as funções orgânicas, inclusive as mentais, indo desde a ansiedade, ou um mal-estar indefinido, até crises convulsivas, à catatonia ou à catalepsia, passando por formas variadas de agressividade ou apatia.
É um fenômeno polissêmico, uma explicação, tanto quanto uma forma de expressão, para cansaço, fraqueza, irritabilidade, tremores, conflitos conjugais e sociais, cefaléias, ira e ressentimentos, infecção parasitária, aflições, privações afetivas ou materiais, fome, cuja etiologia liga-se principalmente a fatores sociorrelacionais.

 

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