Uma Confissão foi escrito em 1879, época em que Liev Tolstói residia na grande propriedade rural de sua família, Iásnaia Poliana, nos arredores da cidade de Tula, na Rússia. Tolstói tinha 51 anos. Como ele mesmo ressalta em seu livro, era casado com uma esposa dedicada, tinha filhos saudáveis e desfrutava o padrão de conforto próprio à elite russa da época. Não tinha nenhum motivo para se preocupar com as condições de vida da família.

Antes, na década de 1860, Tolstói havia escrito o romance Guerra e paz e, na década de 1870, Anna Kariênina, tidos até hoje como dois dos maiores clássicos da literatura mundial. Em 1879, Tolstói era um dos escritores mais admirados na Rússia, e sua reputação já se espalhava por outros países. A despeito de tudo isso, ou, quem sabe, em alguma medida justamente por isso, foi nessa ocasião que lhe vieram insistentes ideias de suicídio, no bojo de um angustiado questionamento sobre o sentido da vida e da morte. A narrativa dessa crise e da busca de alguma resposta satisfatória, capaz de, pelo menos, mitigar as razões que o empurravam para o suicídio, constitui o corpo de Uma Confissão.

A exemplo de muitos escritores russos, as polêmicas acompanhavam seus escritos, e os debates incessantes, que permeavam diversas camadas sociais, agiam como fermento para novas obras, que, por sua vez, suscitavam novos debates, numa cadeia ininterrupta. Sem dúvida, esse processo constitui a principal fonte da riqueza e do largo alcance histórico da literatura russa.

Uma Confissão faz parte desse ambiente intelectual, marcado pela vitalidade, pela amplitude do espectro de questionamentos e pela liberdade das ideias. No entanto, a divulgação dessas ideias era rigorosamente cerceada, pois o ímpeto crítico dos debates despertava temores nas autoridades tsaristas e na cúpula da Igreja Ortodoxa, que, na época, detinha enorme poder e era parte integrante do Estado e do regime autocrático. Para que o leitor tenha uma ideia do vínculo entre Igreja e Estado, basta observar que, a certa altura de Uma Confissão, Tolstói questiona a prece pela saúde do Tsar e de seus familiares, que a Igreja Ortodoxa obrigava seus fiéis a repetirem todos os dias.

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