Entre a década de 1850 e os primeiros anos do século XX, período em que Tolstói escreveu sua obra, a Rússia passou por profundas transformações. A urbanização, a industrialização e a introdução das relações capitalistas, promovidas pelo regime tsarista, acumularam marcas traumáticas na sociedade e na cultura. As formas antigas de vida, de origens agrárias e, em muitos aspectos, alheias à experiência histórica da Europa – modelo de todas aquelas mudanças –, estavam profundamente enraizadas nos costumes e nos valores locais.
A par disso, a Rússia também tentava seguir os passos expansionistas dos países europeus, que na época formavam ou ampliavam seus impérios coloniais na África e na Ásia. Um dos alvos principais do regime tsarista foi a região do Cáucaso, fronteiriça ao território russo. Lá, Tolstói serviu como militar entre 1851 e 1855 (aos 26 e 27 anos), primeiro na campanha do Cáucaso, contra os chamados montanheses do Daguestão, da Inguchétia e da Tchetchénia, e depois na Guerra da Crimeia, contra a aliança formada por Turquia, França e Inglaterra, empenhadas em impedir que a Rússia tivesse acesso ao mar Mediterrâneo.
A literatura fazia parte dessa espécie de pacote modernizador implantado à força na Rússia. A exemplo das formas sociais, as formas literárias já chegaram prontas, acabadas, como uma mercadoria que desembarca no porto, com a chancela de origem nobre e superior. No entanto, pelo menos uma delas – o conto – preservava um vínculo mais forte com formações históricas anteriores à ordem burguesa em implantação. A rigor, o conto remetia diretamente às antigas narrativas orais e à tradição de populações que, por vezes, sequer conheciam a escrita. Por esse ângulo, podemos entender melhor o interesse contínuo de Tolstói por essa forma. Pois, desde suas primeiras iniciativas de escritor até os últimos anos, Tolstói sempre produziu contos. Pode-se dizer que era esse o instrumento narrativo que ele tinha pronto e à mão para atender à sua premência de intervir e questionar. O conto foi também a dimensão em que realizou as mais numerosas experimentações literárias.

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