“É impossível viver deste modo — impossível, impossível, impossível.”
Essa irada e ao mesmo tempo angustiada observação é retirada de um artigo escrito por Tolstói em 1882 (denominado “Por ocasião do censo de Moscou”).
Longe de ser uma frase de efeito deslocada do contexto em que foi formulada, resume o sentimento e o estado de espírito que dominou o escritor, ensaísta e pregador em boa parte de sua vida, que transparecem em muitas de suas obras e que poderia servir de subtítulo a este ensaio O Que É Arte?.
Terminado em 1898, o livro apresenta opiniões de Tolstói sobre a arte de seu tempo, das condições econômicas, sociais e culturais que a geraram e suas considerações sobre como ela deveria ser.
Uma leitura desatenta de um leitor dos nossos dias corre o risco de mostrar a obra como fruto de um mau fim de semana de um carola religioso, provinciano e ranzinza que, em nome de uma arte pretensamente popular, pura e que deve servir ao bem, joga no lixo como inútil e nociva a maior parte da produção cultural e artística do Ocidente.
Dentro desse ponto de vista, o conhecimento desta obra poderia ser levado a efeito com a devida condescendência que dedicamos aos anacronismos de todos os campos e naipes.
Infelizmente, não é tão fácil assim e O Que É Arte? insiste em não se encaixar na categoria de curiosidade pitoresca e descartável.
O Que É Arte? demorou quinze anos para ser concluída. Insere-se numa série de livros e tratados polêmicos na qual o autor, com uma honestidade intelectual consigo mesmo da qual podemos discordar, mas que nunca devemos descartar, expõe ideias e pensamentos, angústias e iras na tentativa de influenciar (e, portanto, transformar) a sociedade na qual vivia e de reafirmar, de forma radical, as conclusões a que tinha chegado.
Os sentimentos que o levaram a escrever O Que É Arte? e outros livros também nutriram, de forma mais complexa e ambígua, suas obras artísticas mais sombrias. Datam do mesmo período A morte de Ivan Ilitch, Sonata a Kreutzer, Mestre e servidor e outras. Somente na última de suas novelas, a serena e perfeita Hadji Murat, podemos vê-lo reconciliado com a tranquilidade do Cáucaso que conhecera quando jovem.

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