No início de um livro sobre Fernando Pessoa, comparando a insignificância da vida à grandeza do que escreveu, disse Octavio Paz que “a sua obra é a sua biografia”. O que é verdade, mas não é inteiramente verdade. Porque, à margem do poeta, sobrevive um homem que dorme, se veste, almoça, trabalha e sonha. Mas quem será mesmo esse homem?, eis a questão. Ao longo dos quase dez anos que consumi escrevendo uma biografia sua,2 tentei decifrar esse enigma. E assim ele foi escapando das sombras num físico débil, com pernas pouco musculosas e desconjuntadas. Braços flácidos, que balançavam sem coordenação ao caminhar, para ele “estandartes de Deus”. Mãos brancas e “um pouco sombrias”, de que tinha vergonha — tanto que as escondia por trás dos joelhos, quando sentava. Peito chato, como o peito chato do pai tuberculoso. Face banal, “pálida e sem interesse”. Voz “baça e trêmula”. Ouvido “meio fraco”. Nariz que dizia ser um “focinho envergonhado que ofendia a humanidade”. E míope, usando sempre óculos redondos — de metal (no começo da vida) ou tartaruga (no final). Em resumo, palavras suas, “para ser cadáver só me faltava morrer”.
Segundo ele, “o artista deve nascer belo e elegante”. Mas já que belo não nasceu, essa “mistura de judeus e fidalgos”, cumpria ser elegante. A tragédia do corpo era então compensada num enorme apuro no vestir. Vaidoso, até. Com sapatos pretos de verniz, comprados na Sapataria Contente (que ficava no início da Avenida da Liberdade). Lenços, meias e camisas (brancas e gomadas, com punhos retos e colarinhos de ponta) na Camisaria Pitta (da Rua do Ouro). Calças papo de anjo (apertadas nas polainas), casacos compridos (apertados no corpo) e ternos de corte anglo-saxônico feitos, sob medida, pelos mestres da Casa Lourenço e Santos (da Praça dos Restauradores). A mais cara de Lisboa.

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