Jorge De Souza Araújo – Graciliano Ramos E O Desgosto De Ser Criatura

Trata-se de um ensaio, provavelmente o primeiro sobre toda a obra de Graciliano — os romances, contos, memórias, crônicas, cartas, a viagem, e nesta ordem.

Jorge De Souza Araújo – Graciliano Ramos E O Desgosto De Ser Criatura

Este livro investiga e exprime a realidade humana, brasileira e universal na vida e na obra de Graciliano Ramos, identificando caracteres autorais e um sistema estilístico articulado de símbolos e alegorias geralmente trágicos.

Trata-se de um ensaio, provavelmente o primeiro sobre toda a obra de Graciliano — os romances, contos, memórias, crônicas, cartas, a viagem, e nesta ordem. Um projeto ambicioso? Sim.

E a ambição, porque legítima, é um dos méritos deste livro, em cuja elaboração o autor, que é também historiador da literatura, professor em
cursos de graduação e pós-graduação em Letras, dramaturgo, ficcionista e poeta, prova que a análise literária pode ser criativa — e não uma chatice.

Análise, neste livro, no sentido preciso do termo, como exame cuidadoso da tapeçaria que são todos os textos de Graciliano, publicados quando vivo o escritor e postumamente. Análise à qual se ligam intimamente o comentário e a interpretação.

Daí, mais um dos méritos do paciente trabalho de Araujo: mostrar com argúcia o juízo equívoco dos críticos em relação a Caetés (1933), o primeiro romance de Graciliano, e aos contos de seu livro Insônia (1947).

A paixão da leitura, o desvelo de acompanhar cada fio da tapeçaria, perceber como cada um vai se compondo e tramando com inúmeros outros, foi o que levou Araujo ao fio invisível, porém não oculto, da criação de Graciliano: “evitar que o leitor de sua obra seja um mero receptor (receptador, inclusive) passivo, incaracterístico, informe, antes promovendo-o a agente de seu próprio destino e discurso, leitor atento, crítico, coautor”.

A um leitor assim o que Graciliano expõe sem rodeios é “um país — e um Nordeste, mais agudamente — que sangra (e se avilta e se anula) por todos os poros”.

Pois, como advertiu Gide, é com belos sentimentos que se faz a má literatura.


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