Quando, em dezembro de 1961, em Roma, Sartre proferiu uma conferência a convite do Instituto Gramsci, ele acabara de publicar, em abril de 1960, a Crítica da razão dialética, fundamental obra filosófica que estabelece um confronto com o marxismo a partir de uma apreciação paradoxal: o marxismo estagnou e constitui o horizonte insuperável do nosso tempo.
Por que essa conferência ocorreu em Roma e não em Paris? Sartre não tinha nenhuma possibilidade de ser convidado pelo Partido Comunista Francês: ao condenar, em 1956, a intervenção soviética na Hungria, teve de abdicar do papel de “companheiro de jornada” que adotara desde 1952. Em contrapartida, o Partido Comunista Italiano, em busca de abertura cultural e intelectual, continuou atento à obra de Sartre. O politicólogo Marc Lazar reiterou que, se o PCF reservava aos intelectuais, na melhor das hipóteses, o papel de especialistas, o PCI lhes favorecia a intervenção na definição da própria política: “A despeito dos conflitos que surgem em certos períodos entre a direção e os intelectuais como, por exemplo, durante a Guerra Fria, as reflexões dos estudiosos, sobretudo as que surgem no âmbito dos Institutos Gramsci, contribuem para a elaboração da política do Partido. Essa presença dos intelectuais, quase sempre filósofos ou historiadores, junto à direção do Partido favorece a eclosão de discussões teóricas ou culturais internas.” O Instituto Gramsci de Roma, em particular, funciona como “um verdadeiro laboratório de ideias para a direção do Partido”. Assim, compreende-se que tal instituto desejasse ouvir o autor da Crítica da razão dialética.
Desde o início de sua intervenção, Sartre procurou pôr a subjetividade no âmago da análise marxista para lhe devolver o vigor perdido. Ao mesmo tempo, fez uma crítica virulenta a Lukács, embora o principal livro desse autor, História e consciência de classe (1923), fosse visto, na época e ainda hoje, como satisfazendo esse propósito.

  

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