Receio que as duas obras incluídas neste volume – Crítica Da Razão Dialética e Questão de Método – pareçam ter uma importância e ambição desiguais. Logicamente, a segunda deveria preceder a primeira, cujas fundações críticas ela visa constituir.
Mas tive receio de que essa montanha de folhas parecesse dar à luz um rato: seria necessário agitar tanto ar, gastar tantas penas e preencher tanto papel para chegar a algumas considerações metodológicas?
E como, de fato, o segundo trabalho é oriundo do primeiro, preferi conservar a ordem cronológica que, em uma perspectiva dialética, é sempre a mais significativa.
Questões de método é uma obra de circunstância: isso explica seu caráter um pouco híbrido; e é também por essa razão que os problemas parecem ser aí sempre abordados de viés.
Uma revista polonesa tinha decidido publicar, durante o inverno de 1957, um número dedicado à cultura francesa; pretendia dar aos leitores um panorama do que, entre nós, ainda se designa por “nossas famílias espirituais”. Por isso, solicitou a colaboração de numerosos autores e propôs que eu tratasse do seguinte tema: “Situação do existencialismo em 1957”.
Não gosto de falar do existencialismo. O caráter próprio de uma pesquisa é ser indefinida. Dar-lhe um nome ou defini-la é fechar o círculo: que resta? Um modo finito e já ultrapassado da cultura, algo como uma marca de sabão, ou por outras palavras, uma idéia. Eu teria declinado o pedido de meus amigos poloneses se não tivesse visto nele um meio de expressar, em um país de cultura marxista, as contradições atuais da filosofia.
Nessa perspectiva, julguei que poderia agrupar os conflitos internos que a dilaceram em torno de uma importante oposição: entre a existência e o saber. Mas talvez eu tivesse sido mais direto se, para a economia do número “francês”, não tivesse sido necessário que, antes de tudo, eu falasse da ideologia existencial, do mesmo modo que era solicitado a um filósofo marxista, Henri Lefebvre, para “situar” as contradições e o desenvolvimento do marxismo na França, durante os últimos anos.

Camisa Pessoa

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