Lacan não é la canne e sim lacune. Mesmo que o establishment o queria já-claquean-tecipamos que essa tradução não lhe fará qualquer concessão e as spaltungen, que são inúmeras, serão mantidas tal qual foram forjadas por uma fala que sempre se quis falha. Nossa intenção, portanto, não foi docilizar ou domesticar esse difícil seminário proferido já no fim de 1973 e que segue até meados de 1974. Ambíguo e pluridimensional, desde o título que faz conjunção-disjuntiva entre Les non-dupes errent e Les noms du père, tentamos traduzi-lo (traduttore, traditore) o mais próximo possível da letra que, cá entre nós, já não é mais, por essa época, tão freudiana assim.
O que o leitor encontrará, então, nesse texto que antes de mais nada foi fala, não custa salientar, são as intermitências e modulações próprias de um dizer que, como Lacan mesmo enfatiza, fazem parte de sua lalíngua que procura, às vezes de forma desesperada, dar conta desse prática do impossível que é a psicanálise. Assim, ritornelos e cacofonias, interrupções abruptas e becos que não culminam em um fim, sentenças confusas – muito confusas – e frases contraditórias – muito contraditórias – tudo isso foi mantido aqui. Os lapsus tem o seu devido lugar, claro, e quando a tentação nos acossou em planificá-los, procuramos não explicar nada – nem sabemos se isso seria possível – e, se algumas vezes, duplicamos certos significantes, foi porque ou são unbegriffen ou porque nossa arte-fício não alcançou verter ipsis literis o riverrun de Lacan.
Mas nosso trabalho não se encerrou aí. A edição staferla – que tomamos como base para essa haeresis – e talvez com a intenção de não produzir jouis-sense em demasia, optou por não demarcar muito bem seus parágrafos e o tecido que nos ofereceu se assemelha, em muitas vezes, a uma colcha de retalhos modernista que mais parece um jogo de non-sense ou até ob-sense.
E fica claro que, ainda assim – não se pode fazer senão o pior, não é mesmo? – se trata de uma eleição – ex-legere – e, nesse sentido, a nossa escolha – ex-legere – no caso, tomou uma outra via, que como se verá, arrisca e aposta num Freude que já se afirmou como imprescindível à qualquer leitura. O mesmo vale para as pontuações – muito problemáticas na edição staferla – que, se fazem sentido, são, não adianta negar, fundamentais, pois, sem ele – ou elas – não há ex-sistência. Assim, sempre que um ponto, um travessão, um parênteses ou uma vírgula se impuseram, os pusemos no texto, mesmo que depois ex-sista oposição.

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