O Jovem Marx E Outros Escritos De Filosofia – O conjunto de textos de Gyõrgy Lukács aqui coligidos, apresentados em ordem cronológica, reúne materiais inéditos no Brasil (com uma única exceção: a conferência “As bases ontológicas do pensamento e da atividade do homem” ). Todos centrados sobre problemáticas de natureza essencialmente filosófica, cobrem um largo período da vida do pensador húngaro’ – na verdade, quase três décadas e meia, do imediato pós-guerra ao fim dos anos sessenta, pouco antes de sua morte.
A sempre complexa evolução intelectual de Lukács sofreu inflexões no curso deste período, embora nenhuma das quais com a magnitude e a profundidade das que anteriormente marcaram a sua trajetória teórica e política. Com efeito, o filósofo que retorna à Hungria após a libertação e a derrota do fascismo já tem o seu perfil inteiramente definido: aos 60 anos, sua assimilação do legado de Marx e Engels está substantivamente concluída.
Lukács, porém, nunca foi um pensador cuja radical coerência possa ser confundida com imobilismo ou apego a posições fechadas; ao contrário, esteve sempre atento às novas realidades da vida e da história e sempre procurou, no marco das limitações políticas a que esteve subordinado, respostas e soluções para elas. Conhecem-se tais limitações: desde 1929, quando realizou, no interior do movimento comunista, a sua primeira autocrítica, ele solidarizou-se com a “teoria do socialismo num só país” e jamais foi tentado a tornar-se um “dissidente”. Nunca vacilou: entre a fácil “liberdade” que o Ocidente lhe oferecia e a difícil e onerosa luta no interior das fronteiras do que seria depois designado como “socialismo real”, escolheu a segunda alternativa.
Os custos desta escolha não foram apenas formais, como os que aparecem nas citações “protocolares” de Stalin, na referência a ele como um “clássico” do marxismo etc., ou ainda na utilização, sobretudo nos primeiros anos da Guerra Fria, de uma linguagem virulenta ( aliás, observável em passagens de alguns dos textos reunidos neste volume) , o que permitiu a desafetos e a leitores desavisados apor-lhe o carimbo de “stalinista”. Esta escolha afetou até mesmo a dinâmica da sua reflexão: não são poucos os analistas que, mesmo aceitando suas concepções metodológicas gerais, atribuem a tal escolha implicações mais estruturais. Lukács, aliás, esteve entre dois fogos: stalinistas e associados jamais o consideraram um dos seus, antes vendo nele um “revisionista”.

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